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Nos Pântanos Da Ilusão

silviarisilva
23 de mai.
9 min de leitura

Jesus amado, caminho Contigo pelos pântanos da ilusão e, a cada passo, compreendo mais profundamente o quanto a alma humana pode se perder quando deixa de escutar a verdade que já conhece.


A lama que encontro sob os pés não nasceu de um único erro, nem de uma única dor, nem de uma única escolha infeliz. Ela foi sendo formada lentamente, com pensamentos alimentados sem vigilância, sentimentos guardados como direito, mágoas protegidas como se fossem justiça, fugas repetidas como se fossem descanso, desculpas oferecidas à consciência até que a própria consciência, cansada de chamar, parecesse silenciar.


Mas ela não silencia, Mestre, a consciência apenas espera, e quando a alma não deseja ouvi-la no recolhimento, passa a escutá-la na dor.


Caminho ao Teu lado e vejo rostos marcados pelo peso das próprias ilusões. Vejo espíritos que buscaram caminhos fáceis para evitar responsabilidades difíceis. Pensaram que a fuga diminuiria o fardo, mas o fardo caminhou com eles. Acreditaram que reclamar aliviaria a dor, mas a reclamação apenas aumentou o eco do sofrimento. Desejaram escapar das consequências, mas nenhuma consequência desaparece enquanto a causa permanece viva dentro do ser.


E diante disso, Jesus, eu não julgo.


Tu me ensinaste que julgar é olhar uma queda sem compreender o caminho que a antecedeu. Ensinaste-me que a firmeza da Luz não precisa de desprezo, que a justiça não precisa de dureza cruel, que o amor não se torna fraco quando observa com misericórdia. Por isso, eu caminho, observo, escuto e espero o instante em que a alma, cansada de defender a própria dor, começa a desejar verdadeiramente sair dela.


Há gritos nestes pântanos, Mestre, gritos de revolta, de culpa, de medo, de abandono, de vingança. Mas, por trás de cada grito, existe uma história mal compreendida, uma escolha mal sustentada, um amor recusado, uma verdade adiada. Muitos ainda se prendem ao passado não para aprender com ele, mas para cobrá-lo. Repetem a ofensa, alimentam a lembrança, seguram a perda como quem segura uma prova contra a vida. Não percebem que aquilo que seguram para acusar também os mantém presos.


A vingança parece força aos olhos da alma ferida, mas é corrente. A cobrança parece justiça quando o coração está escuro, mas se torna alimento da própria prisão. A falta de perdão parece proteção, mas endurece a parte mais sensível do espírito, e assim os vales crescem, não porque a Luz abandona seus filhos, mas porque o desamor, quando cultivado, cria morada.


Jesus, quantas vezes a criatura pede paz sem desejar renunciar ao conflito que carrega. Pede alívio, mas conserva a causa do peso. Pede direção, mas protege o orgulho que a impede de obedecer. Pede cura, mas continua tocando a própria ferida com as mãos da revolta. Pede amor, mas fecha as portas exatamente no ponto em que o amor precisaria entrar.


E ainda assim Tu caminhas.


Essa é a grandeza que me sustenta: Tu não compactuas com a ilusão, mas também não abandonas o iludido. Não aprovas o erro, mas não reduzes o espírito ao erro cometido. Não retiras da alma a responsabilidade, mas permaneces junto dela até que tenha forças para encarar aquilo que plantou. Tu não arrancas ninguém da lama apenas para que retorne a ela sem consciência. Tu esperas o instante em que o coração, mesmo quebrado, finalmente aceita levantar os olhos.

É nesse instante que o trabalho começa.


Não quando a alma apenas se desespera, porque o desespero ainda pode ser medo da dor e não desejo de mudança. Não quando ela apenas chama por socorro, porque muitos pedem socorro querendo conservar as mesmas escolhas.


O verdadeiro instante nasce quando, no fundo do sofrimento, alguma coisa se rende à verdade. A criatura já não quer apenas ser retirada do lugar onde caiu; ela começa a compreender que precisa deixar de ser, por dentro, aquilo que a conduziu até ali.


Mestre, ensina-me a reconhecer esse momento sem pressa e sem omissão. Que eu não me antecipe por piedade mal conduzida, tentando levantar quem ainda se agarra à própria queda. Que eu não demore por frieza, deixando sem amparo quem já abriu uma fresta sincera para a Luz. Que minha mão seja firme, mas não pesada; que minha palavra seja verdadeira, mas não ferina; que minha presença seja instrumento da Tua vontade, e nunca expressão da minha impaciência.


Nos pântanos da ilusão, compreendo que a dor pode tornar-se mestra quando a alma se recusa a aprender pelo amor. Não porque o sofrimento seja destino sagrado, não porque a queda seja necessária para todos, não porque a Luz deseje ver seus filhos abatidos. Mas porque existe uma lei profunda em tudo o que se semeia: aquilo que não é transformado pela consciência retorna pela consequência.


E quantas consequências, Jesus, poderiam ser evitadas se o coração aceitasse antes a humildade. Quantas quedas não se formariam se a criatura escutasse o primeiro aviso da consciência. Quantos vales não cresceriam se o perdão fosse escolhido enquanto ainda era apenas esforço, antes de se tornar necessidade dolorosa. Quantas lamas interiores não se abririam se o ser humano não confundisse orgulho com dignidade, revolta com força, teimosia com personalidade, fechamento com proteção.


Caminho Contigo e vejo que muitos dos que hoje sofrem não foram vencidos de repente. Foram cedendo aos poucos. Um pensamento amargo hoje, uma palavra dura amanhã, uma culpa lançada sobre outro, uma responsabilidade recusada, uma verdade escondida, uma mágoa revisitava, uma pequena vingança íntima, uma satisfação secreta em ver o outro sofrer. Nada parecia grande no início. Mas aquilo que se repete cria caminho; aquilo que se alimenta cria raiz; aquilo que se protege passa a governar.


Por isso, Mestre, peço pelos que ainda estão na Terra e caminham distraídos sobre os próprios pântanos internos. Que despertem antes que a dor precise gritar mais alto. Que reconheçam o peso de uma mágoa antes que ela se transforme em morada. Que percebam o perigo de uma reclamação constante antes que ela se torne forma de viver. Que não tratem como pequeno o desamor que repetem todos os dias. Que não chamem de temperamento aquilo que já é desequilíbrio cultivado. Que não chamem de justiça aquilo que é vingança disfarçada.


Que aprendam, Jesus, que o amor não é palavra bonita para os momentos de paz. O amor é escolha quando o orgulho exige resposta, é silêncio quando a palavra feriria, é limite quando a permanência destruiria, é perdão quando a alma deseja continuar presa, é responsabilidade quando a fuga parece mais fácil, é verdade quando a ilusão oferece descanso.


Só o amor abre caminho onde a ilusão afunda. Mas não o amor frágil que permite tudo; o amor verdadeiro, que esclarece, corrige, sustenta e chama a alma de volta à própria dignidade.


Mestre amado, quando Te vejo com as mãos estendidas, compreendo que levantar os caídos não é negar a queda, é mostrar que a queda não precisa ser a última palavra.


É oferecer direção sem retirar da alma a necessidade de caminhar, amparar sem transformar o amparo em dependência, acolher sem mentir. É dizer, com ternura e firmeza: “Levanta-te, mas deixa aqui aquilo que te afundou. Não leves contigo a mesma vingança, o mesmo orgulho, a mesma revolta, a mesma ilusão, porque nenhum caminho novo permanece claro quando a alma insiste em carregar a lama antiga.”


Jesus, que eu jamais esqueça essa verdade.


Que, ao atravessar os pântanos da ilusão, eu não me contamine pela dor que observo, nem me endureça diante dela. Que eu não perca a compaixão, mas também não confunda compaixão com permissão para que a sombra continue comandando. Que eu saiba servir sem vaidade, agir sem precipitação, esperar sem abandono, corrigir sem humilhar, sustentar sem prender.


E que, ao olhar para cada alma caída, eu me lembre de vigiar a mim mesma. Porque ninguém trabalha pela Luz com segurança se deixa crescer, em segredo, as sementes dos mesmos vales que deseja auxiliar. Quem fala de perdão precisa examinar suas próprias cobranças. Quem fala de amor precisa observar suas próprias durezas. Quem fala de verdade precisa parar de negociar com as próprias desculpas. Quem deseja levantar o outro precisa também permitir que a Luz o levante por dentro.


Mestre, há momentos em que os pântanos parecem vastos demais. A dor se espalha, as vozes se confundem, as lamentações sobem como névoa pesada. Mas então sinto Tua presença ao meu lado, e recordo que nenhuma região de sofrimento é maior que a paciência do amor divino. A Luz não se desespera diante da sombra. A Luz trabalha, espera, a Luz chama, sustenta os que servem e alcança, no momento certo, os que ainda não conseguem responder.


Por isso, peço que Tua força envolva todos os trabalhadores que descem a esses lugares em Teu nome. Que os Guardiões permaneçam firmes na Lei, que os socorristas mantenham o coração claro, que as equipes médicas espirituais acolham as feridas profundas sem se deixarem envolver pelo desespero que encontram. Que cada servidor compreenda que o resgate não é espetáculo, não é demonstração de poder, não é movimento de curiosidade espiritual, mas compromisso sério com a vida que ainda pulsa mesmo onde parece soterrada.


Que nenhuma alma seja tocada antes do tempo. Que nenhuma dor seja exposta sem necessidade. Que nenhum auxílio seja oferecido para alimentar dependência. Que cada aproximação seja conduzida pela permissão superior, pela leitura justa do coração e pela certeza de que todo verdadeiro socorro precisa respeitar a Lei.


Jesus, diante desses pântanos, eu Te peço também pelos, encarnados e desencarnados que ainda aprendem. Que não esperem a queda profunda para reconhecer o valor da humildade. Que não precisem perder a paz para compreender o peso do orgulho. Que não precisem habitar vales de dor para aprender a soltar uma mágoa. Que não precisem ver a própria luz enfraquecida para descobrir que o desamor nunca é inofensivo.


Ensina-nos a corrigir o passo enquanto ainda há chão firme. Ensina-nos a pedir perdão enquanto a oportunidade ainda está próxima. Ensina-nos a reparar antes que a distância torne tudo mais difícil. Ensina-nos a transformar a dor antes que ela se transforme em identidade. Ensina-nos a amar antes que a ausência nos mostre o valor da presença.


E quando as nuvens escurecerem dentro de nós, que não digamos que o céu desapareceu. Quando a tempestade chegar, que não façamos dela morada. Quando o peso da ilusão tentar nos convencer de que não há saída, que possamos recordar que a saída começa no primeiro ato de verdade. Uma alma começa a sair do pântano quando deixa de mentir para si mesma.


Mestre amado, se um dia a ilusão tentar me tocar, chama-me de volta. Se a dor tentar endurecer meu olhar, devolve-me a ternura firme. Se a justiça em minhas mãos quiser perder a misericórdia, reconduz-me à Tua presença. Se eu me esquecer de que toda alma caída ainda pode despertar, mostra-me outra vez as Tuas mãos estendidas.


Que eu caminhe Contigo, sempre Contigo, porque longe de Ti até o desejo de ajudar pode se misturar ao orgulho. Contigo, o trabalho se torna serviço, contigo, a firmeza se torna justa, contigo, a compaixão se torna lúcida, contigo, a mão que levanta não prende, não domina, não se envaidece; apenas serve.


Nos pântanos da ilusão, que Tua Luz seja direção. Nos corações presos à vingança, que Teu amor desperte o cansaço da sombra. Nas almas que reclamam da colheita, que Tua verdade revele a semeadura. Naqueles que fugiram da responsabilidade, que Tua presença mostre que assumir a verdade não é condenação, mas início de libertação.


E em nós, que ainda caminhamos, que haja vigilância. Que não criemos pântanos íntimos, não alimentemos lamas emocionais por vaidade, orgulho ou medo. Que não usemos a dor como desculpa para ferir, não chamemos de sofrimento aquilo que muitas vezes é apego à própria versão dos fatos. Que não peçamos Luz enquanto escondemos de nós mesmos aquilo que precisa ser transformado.


Jesus, que o amor nos ensine antes que a dor precise ensinar, que a consciência nos corrija antes que a consequência nos dobre. Que a humildade nos levante antes que a queda nos obrigue a olhar para cima, que o perdão nos liberte antes que a vingança nos afunde, que a verdade nos conduza antes que a ilusão nos cobre o preço de termos caminhado sem ela.


Recebe esta prece, Mestre, como entrega, como vigilância e como compromisso.

Que eu não atravesse os pântanos para olhar a dor com distância, mas para servir quando a Lei permitir. Que eu não veja os caídos como condenados, mas como almas que ainda podem despertar quando aceitarem abandonar aquilo que as prende. Que eu não esqueça que levantar quem caiu também me ensina a levantar, dentro de mim, tudo aquilo que ainda precisa responder melhor ao Teu amor.


Porque a ilusão afunda, o desamor prende, a vingança prolonga a dor e a fuga aumenta o peso. Mas o amor, quando aceito com verdade, ergue a alma, limpa o caminho, devolve consciência, reacende a esperança e conduz novamente à Luz.


Assim seja, Jesus amado, em Teu nome, em nome da Luz, na força do amor, na justiça que não se corrompe e na fidelidade ao bem que levanta sem iludir, ampara sem prendere conduz cada alma ao reencontro com a própria verdade.


Fonte: Reiny Kamanishy - Serena Guardiã da Ordem da Luz

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