A Necessidade de Estar Certo
- silviarisilva
- há 1 dia
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Existe uma diferença que vocês precisam aprender a reconhecer: buscar a verdade não é o mesmo que precisar estar certo. Quem busca a verdade aceita descobrir que compreendeu mal, julgou com precipitação, interpretou segundo a própria dor ou tomou uma decisão equivocada. Quem precisa estar certo não investiga para compreender. Investiga para encontrar argumentos que protejam a versão escolhida. Não entra em uma conversa disposto a examinar os fatos, mas determinado a sair dela sem admitir qualquer responsabilidade.
Não chamem isso de firmeza. Firmeza é permanecer ao lado da verdade mesmo quando ela desmonta aquilo em que vocês acreditavam. Insistir em uma posição apenas porque foi assumida por vocês é rigidez. Defender uma interpretação depois que os fatos a contradizem não é convicção. É resistência. A verdade não pertence a ninguém. Vocês podem encontrá-la, servi-la e viver de acordo com ela, mas não podem transformá-la em propriedade pessoal para vencer discussões.
Quem precisa estar certo não escuta. Espera o outro terminar de falar para apresentar a resposta que já estava preparando. Seleciona palavras, procura falhas secundárias e desvia a conversa para qualquer detalhe que lhe permita escapar do ponto principal. Quando percebe que sua versão não se sustenta, não interrompe a defesa. Muda o assunto, altera a sequência dos acontecimentos, retira informações inconvenientes e acrescenta explicações que diminuam sua participação.
Quando nem isso funciona, ataca a forma como foi confrontado. Já não fala sobre o que fez, mas sobre o tom usado por quem lhe mostrou. Não examina o comportamento que causou o conflito; concentra-se no desconforto que sentiu ao ser questionado. Transforma a correção recebida em uma ofensa maior do que a própria conduta. Dessa maneira, o responsável passa a se apresentar como vítima, e aquele que apontou o problema acaba colocado no lugar de agressor.
Eu vos digo com clareza: sentir-se ofendido não prova que vocês foram injustiçados. Existem palavras cruéis e acusações falsas, e elas precisam ser reconhecidas como tais. Contudo, também existem verdades que incomodam porque atingem exatamente aquilo que vocês tentavam esconder. O desconforto não decide se uma orientação é justa. Os fatos decidem.
Parem de avaliar uma correção apenas pela dor que ela provocou. Perguntem se aquilo que foi apontado aconteceu. Verifiquem se houve omissão, manipulação, desrespeito, negligência ou transferência de responsabilidade. Examinem o resultado produzido. Enquanto discutirem somente a maneira como a verdade chegou, continuarão evitando aquilo que ela veio revelar.
A necessidade de estar certo não surge porque alguém possui segurança. Surge porque não suporta ser visto em contradição. Vocês afirmam determinados valores, mas nem sempre vivem de acordo com eles. Quando essa distância é revelada, precisam escolher entre corrigir a conduta ou proteger a aparência. Quem escolhe a aparência passa a administrar informações, controlar narrativas e justificar tudo o que ameaça mostrar a incoerência.
É por isso que algumas pessoas defendem opiniões simples como se estivessem lutando pela própria sobrevivência. A discussão já não trata do assunto inicial. Trata da impossibilidade de dizer: “Eu me enganei.” Admitir um erro parece perda de autoridade, diminuição ou humilhação. Então a pessoa prefere desgastar relações, distorcer fatos e prolongar conflitos a pronunciar uma frase que encerraria toda a disputa.
Escutem: reconhecer um erro não retira autoridade de ninguém. O que destrói a autoridade é continuar defendendo aquilo que já se sabe ser falso. Aquele que corrige a própria posição demonstra domínio de si. Aquele que insiste apenas para não recuar demonstra que está sendo governado pela necessidade de vencer.
Não confundam valor pessoal com infalibilidade. Vocês não precisam estar certos em todas as situações para conservar dignidade. Precisam ser honestos quando descobrem que estavam errados. Dignidade não é sustentar uma posição insustentável diante dos outros. É possuir coragem para abandoná-la quando a consciência já não permite continuar.
A pessoa que necessita ter razão não procura uma solução. Procura um culpado. Enquanto houver alguém a quem atribuir a origem do problema, ela acredita que não precisa rever a própria atitude. Examina minuciosamente os erros alheios e trata os próprios como consequências inevitáveis. Se agrediu, foi provocada. Se omitiu, estava cansada. Se manipulou, tinha medo. Se abandonou uma responsabilidade, as circunstâncias não ajudaram. Se feriu, também havia sido ferida.
Esses fatores podem explicar o estado em que a pessoa se encontrava, mas não transformam a conduta em correta. Dor não é autorização. Medo não é absolvição. Cansaço não torna toda omissão legítima. Ter sido ferido não concede a ninguém o direito de ferir sem responder por isso. Compreender as causas de um comportamento serve para impedir sua repetição, não para declará-lo aceitável.
Muitos aceitam falar sobre a própria história enquanto ela os coloca no lugar de vítimas. Narram as injustiças sofridas, os abandonos, as decepções e as dificuldades. Tudo isso precisa ser reconhecido. Entretanto, quando a análise alcança o momento em que começaram a reproduzir aquilo que condenavam, encerram a conversa. Dizem que ninguém conhece sua luta, que fizeram o melhor possível ou que não havia outra escolha.
Nem tudo o que vocês chamam de falta de escolha foi ausência de possibilidade. Muitas vezes, havia caminhos, mas nenhum deles preservava o conforto desejado. Escolher diferente exigiria renúncia, limite, disciplina, afastamento, reparação ou perda de algum benefício. Vocês rejeitaram essas alternativas e, depois, contaram a história como se tivessem sido empurrados inevitavelmente para a única decisão disponível.
Não façam isso. Digam a verdade: “Eu não quis pagar o preço da outra escolha.” Essa afirmação é desconfortável, mas devolve lucidez. Enquanto repetirem que nada poderiam ter feito, continuarão impotentes diante do mesmo mecanismo. Quando reconhecem que uma escolha existiu, recuperam também a possibilidade de escolher de maneira diferente.
A consciência amadurece quando encontra o ponto exato em que poderia ter interrompido uma conduta e não interrompeu. Não para viver em condenação, mas para compreender onde entregou o próprio discernimento. Talvez vocês tenham consentido por medo. Talvez tenham permanecido por dependência. Talvez tenham cedido para conservar aprovação. Talvez tenham atacado porque não suportaram ser contrariados. A causa precisa ser examinada, mas o ato precisa ser assumido.
Enquanto atribuírem tudo ao ambiente, ao passado, às pessoas ou às influências espirituais, conservarão intacta a parte de vocês que participou do problema. Nenhuma transformação acontece onde a responsabilidade é sempre colocada fora. O que pertence aos outros deve permanecer com eles, mas aquilo que pertence a vocês precisa ser recolhido sem desculpas.
Quem precisa estar certo trata qualquer admissão como derrota. Não consegue dizer “fui injusto” sem acrescentar imediatamente o que o outro fez. Não consegue pedir perdão sem apresentar uma defesa. Não consegue reconhecer que exagerou sem lembrar que também foi provocado. Não consegue reparar sem exigir que o ofendido reconheça suas falhas no mesmo instante.
Isso não é pedido de perdão. É negociação de inocência.
Quando vocês dizem “desculpe, mas”, tudo o que vem depois do “mas” tenta diminuir o que foi assumido antes. A frase começa como reconhecimento e termina como acusação. O ofendido é chamado a acolher o pedido e, ao mesmo tempo, aceitar parte da culpa pelo que recebeu. Dessa forma, vocês parecem humildes sem abrir mão da necessidade de continuar certos.
Quem reconhece uma falta não transforma o pedido de perdão em tribunal. Assume o que fez, escuta o efeito produzido e repara o que estiver ao alcance. O contexto poderá ser tratado depois, se for realmente necessário, mas não será usado para apagar o dano. A verdade não exige que uma pessoa carregue sozinha toda a responsabilidade de um conflito. Exige apenas que cada um pare de condicionar o próprio reconhecimento ao reconhecimento do outro.
Se vocês só admitem a própria falha depois que o outro admite a dele, não estão agindo por consciência. Estão fazendo uma troca. Se só pedem perdão quando recebem garantia de que serão perdoados, não estão reparando; estão tentando controlar a consequência. Se só modificam a postura quando todos reconhecem sua mudança, continuam dependentes da aprovação que alegavam não buscar.
Decidam o que desejam preservar: a aparência de quem nunca erra ou a integridade de quem corrige o erro. Não há como sustentar as duas coisas. A aparência exige que os fatos sejam reorganizados. A integridade exige que sejam enfrentados.
Quem vive para parecer certo começa a escolher cuidadosamente o que cada pessoa saberá. Conta uma parte da história a alguém, outra parte a outro e apresenta a versão mais favorável a quem poderá apoiá-lo. Aproxima-se daqueles que confirmam sua narrativa e se afasta de quem faz perguntas precisas. Chama de apoio a concordância conveniente e chama de negatividade toda lucidez que se recusa a participar da ilusão.
Pouco a pouco, forma ao redor de si um ambiente no qual ninguém pode discordar sem enfrentar hostilidade, silêncio punitivo, afastamento ou acusação. As pessoas próximas percebem que o diálogo não existe. Aprendem a medir palavras, evitam determinados assuntos e deixam de oferecer opiniões sinceras. Aquele que precisa estar certo interpreta esse silêncio como respeito, mas muitas vezes está apenas cercado pela desistência dos que se cansaram de tentar alcançá-lo.
Não confundam ausência de confronto com confirmação. O fato de ninguém mais questionar vocês não significa que todos reconheceram sua razão. Talvez apenas tenham compreendido que qualquer conversa será transformada em disputa. Recuaram porque perceberam que vocês não querem entender. Querem vencer.
Quando todas as pessoas precisam tomar cuidado para não contrariá-los, o problema não é a sensibilidade do ambiente. É a incapacidade de vocês de conviver com a verdade que não controlam. Quando toda discordância termina em afastamento, observem o que estão construindo. Talvez não estejam selecionando relações saudáveis. Talvez estejam eliminando todas as presenças que não aceitam sustentar sua versão.
Essa necessidade também invade os trabalhos espirituais. A pessoa recebe uma orientação e, antes de examinar seu conteúdo, procura razões para desacreditar quem falou. Questiona o momento, o tom, a escolha das palavras e a intenção do orientador. A forma de uma orientação pode precisar de avaliação, mas esse exame não pode servir de esconderijo para impedir que o conteúdo seja compreendido.
A pergunta correta não é: “Com que direito me disseram isso?” A pergunta correta é: “O que foi revelado e o que os fatos demonstram?” Se a orientação for falsa, será rejeitada pela análise responsável. Se for verdadeira, o desconforto de recebê-la não a tornará menos necessária.
Quem deseja amadurecer pergunta o que precisa compreender. Quem deseja permanecer intocado procura uma maneira de provar que nenhuma correção se aplica a ele. É nesse momento que a advertência passa a ser tratada como perseguição, a disciplina como autoritarismo e a firmeza como falta de amor. A pessoa deseja um auxílio espiritual que confirme suas escolhas, retire suas consequências e jamais confronte suas incoerências.
Esse auxílio não vem da Luz.
Os Guardiões não existem para proteger ninguém da verdade. Não trabalham para sustentar personagens, alimentar dependência ou oferecer aprovação espiritual a decisões pessoais. Quando há erro, ele será apontado. Quando há ilusão, será quebrada. Quando há manipulação, será interrompida. Quando existe responsabilidade, ela será colocada diante de quem precisa assumi-la.
Não invoquem o nome de Jesus para defender aquilo que a própria consciência já reconheceu como incorreto. Não utilizem mensagens espirituais para vencer discussões. Não atribuam a mentores e Guardiões opiniões que servem aos seus interesses. Quem precisa recorrer à autoridade espiritual para impedir que os fatos sejam examinados já abandonou o discernimento.
A verdade não teme perguntas. Uma orientação legítima não precisa proibir análise, exigir obediência cega ou colocar alguém acima da responsabilidade. Quando uma pessoa usa o espiritual para encerrar o diálogo, ela não está servindo à Luz. Está utilizando aquilo que deveria despertar a consciência para impedir que sua posição seja questionada.
No grupo de estudo, essa conduta se torna ainda mais grave. Quem não admite correção não está preparado para lidar com responsabilidades espirituais. Pode estudar durante anos, conhecer termos, interpretar experiências e repetir ensinamentos, mas continuará perigoso se utilizar o conhecimento para confirmar a própria importância. Sem capacidade de rever entendimento, o estudo não produz autonomia; produz presunção.
Não me importa quantos conceitos vocês sabem explicar. Quero saber o que fazem quando os fatos demonstram que estavam errados. Quero saber se corrigem uma orientação transmitida de forma equivocada. Quero saber se conseguem dizer “não sei” sem inventar uma resposta. Quero saber se aceitam estudar novamente aquilo que julgavam dominar. Quero saber se preservam a verdade quando ela exige que percam uma posição.
Conhecimento não transforma aquele que o usa para se defender. Ao contrário, oferece argumentos mais sofisticados para a mesma resistência. A pessoa aprende novas palavras, organiza discursos convincentes e cobre a própria rigidez com uma linguagem elevada. Fala de humildade, mas reage com indignação à correção. Ensina responsabilidade, porém atribui suas falhas aos demais. Exige estudo dos outros enquanto considera sua própria compreensão intocável.
Isso não é evolução. É uma ilusão instruída.
Quanto mais conhecimento alguém possui, maior deve ser sua responsabilidade diante do erro. A ignorância pode explicar uma escolha inicial. Depois que a consciência recebeu esclarecimento, insistir na mesma conduta já não pode ser tratado como desconhecimento. A partir desse ponto, existe consentimento.
Vocês podem dizer que não desejavam ferir, mas, se repetem o mesmo comportamento depois de conhecer o dano, a intenção declarada perde valor. Podem afirmar que não perceberam, mas, depois de serem advertidos, já não estão na mesma condição. Podem alegar que estão tentando, porém tentativas que jamais modificam qualquer atitude precisam ser examinadas com honestidade. Não chamem de esforço aquilo que se limita a palavras.
A verdade de uma escolha aparece no que vocês repetem. Palavras podem anunciar consciência, mas a continuidade revela aquilo que realmente está sendo sustentado. Se o comportamento permanece, se a consequência retorna e se toda orientação é rejeitada, não digam que ainda não compreenderam. Talvez tenham compreendido e decidido não mudar.
É por isso que algumas advertências se tornam mais firmes com o tempo. Não porque Jesus tenha menos amor, mas porque a consciência já recebeu oportunidades suficientes. Misericórdia não significa impedir eternamente que alguém encontre o resultado da própria resistência. Há momentos em que permitir a consequência é a única forma de quebrar uma ilusão que nenhuma palavra conseguiu atravessar.
Não chamem toda consequência de abandono espiritual. Nem toda dificuldade representa ausência de proteção. Existem obstáculos que não serão retirados porque sua remoção conservaria exatamente a irresponsabilidade que precisa terminar. Há situações em que o amparo não modifica o cenário; fortalece vocês para que assumam o que produziram e construam uma resposta diferente.
Perguntem com honestidade: vocês desejam que o Cristo retire a consequência ou que revele a causa que continuam alimentando? Desejam cura ou apenas alívio? Desejam transformação ou uma forma de prosseguir sem serem confrontados?
Muitos pedem paz quando querem apenas não ser contrariados. Chamam de harmonia um ambiente no qual todos se calam para evitar sua reação. Pedem luz, desde que ela ilumine os erros alheios. Pedem proteção, mas recusam limites. Pedem cura, porém preservam as condutas que adoecem relações e desorganizam a própria consciência. Pedem direção, mas já decidiram que aceitarão apenas a resposta que coincidir com sua vontade.
A Luz não se submete às suas preferências. Ela não ilumina somente aquilo que vocês permitem. Quando chega, revela o conjunto. Mostra a injustiça recebida e também a reação que vocês escolheram. Mostra a influência externa e a abertura mantida por dentro. Mostra o erro alheio sem esconder o modo como vocês o utilizaram para justificar os próprios erros.
É por isso que muitos gostam de mensagens firmes enquanto elas atingem outra pessoa. Aplaudem ensinamentos sobre responsabilidade quando pensam em alguém cuja conduta desaprovam. Defendem a verdade enquanto ela confirma suas opiniões. Contudo, quando a mesma força alcança suas próprias contradições, chamam-na de julgamento.
Não confundam amor com conivência. O amor não possui compromisso com a ilusão que vocês desejam preservar. Possui compromisso com sua possibilidade de despertar. Jesus não confirma uma falsidade para evitar que se sintam desconfortáveis. Não chama desordem de caminho, dependência de amor, omissão de bondade ou orgulho de dignidade. Se o Mestre mostrasse aquilo que vocês querem ouvir enquanto caminham em direção contrária à verdade, não estaria amando. Estaria abandonando-os dentro da própria cegueira.
O Cristo não abandona quando confronta. Aproxima-se. A verdade que Ele revela não tem a finalidade de humilhar, mas não será reduzida para proteger uma aparência. O Mestre não veio sustentar personagens. Veio chamar consciências à realidade.
Quem necessita estar certo perde a capacidade de aprender. Acredita que perguntar demonstra fraqueza, que admitir desconhecimento diminui sua posição e que rever uma conclusão compromete sua autoridade. Por isso, finge compreender, fala sobre aquilo que não estudou e trata dúvidas como ameaças. A mente permanece ocupada em demonstrar conhecimento e já não consegue receber sabedoria.
Não há vergonha em dizer “não sei”. Vergonha é inventar certeza e conduzir outros por uma compreensão que vocês não possuem. Não há diminuição em corrigir uma informação. Diminuição é preservar o erro porque temem ser vistos mudando de posição. Não há derrota em aprender com alguém. Derrota é recusar o aprendizado para conservar uma falsa superioridade.
A maturidade aparece quando os fatos contrariam aquilo que vocês acreditavam. Nesse momento, podem ajustar o entendimento ou atacar a realidade. Muitos escolhem atacar. Desacreditam testemunhos, procuram exceções, reconstroem acontecimentos e questionam as intenções de todos os que apresentam evidências. Não desejam descobrir o que ocorreu. Desejam impedir que determinada conclusão seja alcançada.
A realidade não se modifica porque vocês se recusam a reconhecê-la. Uma ferida não deixa de existir porque não pretendiam causá-la. Uma responsabilidade não desaparece porque sua admissão é desconfortável. Uma escolha não se torna justa porque vocês sofreram antes de realizá-la. Um resultado não muda porque imaginaram outro.
Aceitem isto: vocês podem estar errados. Podem ter interpretado mal. Podem ter julgado sem conhecer. Podem ter defendido alguém que agiu de maneira indigna ou acusado quem não possuía a responsabilidade atribuída. Podem ter transmitido uma orientação equivocada. Podem ter reagido a uma lembrança enquanto acreditavam responder ao presente. Podem ter confundido medo com percepção e desejo com direção.
Admitir essas possibilidades não enfraquece o discernimento. Torna-o real. Quem se considera incapaz de errar já perdeu a condição básica para reconhecer o próprio erro.
A necessidade de ter razão faz vocês confundirem correção com submissão. Acreditam que, se admitirem o ponto do outro, estarão se colocando abaixo dele. Não estão. A verdade não estabelece superioridade pessoal. Se alguém enxergou corretamente aquilo que vocês não perceberam, reconheçam. Em outra situação, talvez sejam vocês a oferecer clareza. Ninguém se torna maior por acertar uma vez nem menor por precisar rever uma conclusão.
O problema começa quando a conversa deixa de buscar entendimento e passa a determinar quem ocupará a posição superior. A partir daí, cada argumento se transforma em arma, cada silêncio em estratégia e cada admissão em perda. O diálogo termina, ainda que as pessoas continuem falando.
Vocês precisam decidir se desejam compreender ou vencer. Quem deseja compreender faz perguntas verdadeiras, permite que o outro conclua, examina contradições e aceita modificar a própria posição. Quem deseja vencer interrompe, ironiza, acumula acusações e exige respostas para pontos secundários, impedindo que o assunto central seja tratado.
Observem como agem quando percebem que o outro possui razão. Vocês reconhecem ou procuram imediatamente um erro diferente para equilibrar a situação? Conseguem dizer “isso é verdade” ou sentem necessidade de acrescentar uma crítica? Aceitam a correção ou aguardam uma oportunidade para devolver o desconforto? É nesse momento que a necessidade de estar certo se revela sem disfarces.
Também observem o que fazem quando possuem razão. Utilizam a verdade para esclarecer ou para humilhar? Exigem que o outro se curve? Repetem o erro dele durante anos para conservar vantagem? Transformam o acerto em autorização para desprezar? Estar correto em um fato não torna correta toda atitude adotada a partir dele. A verdade deixa de ser servida quando passa a ser usada para esmagar alguém.
Renato não lhes ensina a vencer pessoas. Ensina a interromper ilusões. A firmeza não existe para alimentar vaidade, mas para estabelecer ordem. Quando a verdade é pronunciada, deve colocar cada responsabilidade em seu lugar, não criar uma nova forma de domínio.
Quem está comprometido com a Lei não manipula fatos, mesmo quando a alteração o favoreceria. Não omite informações para preservar reputação. Não acusa sem provas. Não utiliza a dor para exigir inocência. Não transforma orientação espiritual em autoridade pessoal. Não insiste em uma conclusão depois que a realidade demonstrou seu erro.
A Lei não pergunta qual versão vocês conseguiram tornar mais convincente. Ela responde ao que foi realmente sustentado. Pessoas podem ser enganadas por palavras, aparências e narrativas cuidadosamente preparadas. A realidade espiritual não é enganada. Aquilo que vocês fizeram permanece ligado à intenção, à escolha e à consequência, ainda que ninguém na matéria conheça a história completa.
Por isso, parem de gastar forças tentando administrar o olhar dos outros. A questão não é quantas pessoas acreditam em vocês. A questão é se aquilo que afirmam corresponde ao que aconteceu. Uma multidão pode confirmar uma versão falsa quando recebeu informações incompletas. Alguém pode permanecer sozinho e ainda assim estar diante da verdade. Quantidade de concordância não transforma narrativa em realidade.
Não procurem no grupo pessoas que confirmem aquilo que desejam. Procurem estudo, análise, responsabilidade e disposição para rever. Um grupo que apenas concorda não cresce. Torna-se uma estrutura de validação mútua na qual cada pessoa protege a ilusão da outra para impedir que as próprias ilusões também sejam tocadas.
A autonomia espiritual exige a capacidade de suportar correção. Quem depende de aprovação não possui eixo. Quem necessita ser reconhecido como certo em todas as situações continuará escolhendo a opinião dos outros em vez da própria consciência. E quem não consegue enfrentar a própria consciência buscará constantemente uma autoridade externa que declare sua inocência.
Eu não estou aqui para declarar sua inocência nem para condenar sua existência. Estou para colocar diante de vocês o que precisa ser visto. Aquilo que lhes pertence será chamado pelo nome. Aquilo que pertence aos outros não será colocado sobre seus ombros. Justiça não é absolver tudo nem culpar por tudo. Justiça é precisão.
Se erraram, assumam. Se não sabem, estudem. Se feriram, reparem. Se julgaram sem conhecer, retirem a acusação. Se prometeram e não cumpriram, não inventem circunstâncias para esconder a falta. Se receberam orientação e a rejeitaram por orgulho, reconheçam. Se utilizaram o nome do espiritual para fortalecer uma decisão pessoal, parem imediatamente.
Não esperem que o outro dê o primeiro passo para que vocês façam o que é correto. A responsabilidade de cada um não depende da maturidade alheia. Se vocês só agem corretamente depois que todos ao redor agem, não possuem consciência própria; apenas reagem ao ambiente.
A paz não nasce quando vocês vencem a discussão. Nasce quando já não precisam alterar os fatos para permanecer de pé. Enquanto a própria estabilidade depender da derrota do outro, qualquer discordância parecerá ameaça. Quando estiverem firmados na verdade, poderão reconhecer um erro sem sentir que deixaram de existir.
A verdade não os diminuirá. Retirará apenas a posição falsa que consome energia para ser defendida. Talvez o primeiro encontro com a realidade seja doloroso. Ainda assim, será sólido. E somente sobre o que é sólido podem existir reparação, cura, aprendizado e recomeço.
Não se pode reconstruir aquilo que vocês continuam negando ter danificado. Não se pode corrigir uma escolha que insistem em chamar de inevitável. Não se pode curar uma relação enquanto toda responsabilidade é devolvida ao outro. Não se pode receber orientação profunda quando cada palavra é utilizada para proteger a mesma conclusão.
Parem de perguntar quem venceu. Perguntem o que foi revelado. Parem de procurar defeitos em quem falou apenas para não examinar o que foi dito. Parem de usar a própria dor como licença para produzir novas dores. Parem de chamar orgulho de firmeza, controle de cuidado e resistência de convicção.
Dignidade é permanecer diante do próprio erro sem fugir, culpar ou inventar desculpas. É dizer: “Isso me pertence. Eu responderei pelo que fiz. Não repetirei essa escolha conscientemente.” Essa postura vale mais diante da Lei do que todas as tentativas de parecer irrepreensível.
Chegará o momento em que vocês precisarão escolher entre ter razão e permanecer com a verdade. Se a verdade confirmar sua posição, sustentem-na sem humilhar. Se demonstrar que estavam errados, mudem sem negociar. Nos dois casos, sirvam ao que é real.
Não me respondam com palavras apressadas. A resposta será dada na próxima vez em que alguém lhes mostrar uma incoerência. Será revelada quando perderem o controle da narrativa, quando descobrirem que julgaram mal, quando precisarem pedir perdão sem apresentar defesa e quando a consciência exigir uma mudança que ninguém mais poderá realizar em seu lugar.
Jesus não chama vocês para vencerem discussões. Chama-os para vencerem a resistência que os impede de reconhecer a verdade. Não pede uma aparência sem falhas. Pede honestidade. Não exige que jamais tenham caído. Exige que parem de chamar a queda de caminho.
Enquanto a necessidade de estar certo governar suas respostas, vocês continuarão escolhendo argumentos em lugar de transformação, aprovação em lugar de consciência e aparência em lugar de dignidade. Continuarão afastando aqueles que poderiam ajudá-los e se aproximando de quem aceita confirmar a versão que desejam preservar.
Não busquem um Cristo que concorde com vocês. Busquem força para concordar com a verdade que Ele revela.
O Mestre não sustenta ilusões. Não protege máscaras. Não negocia com a mentira para evitar desconforto. Ele ilumina, mostra, chama e espera uma decisão.
Se desejam caminhar com Jesus, abandonem a necessidade de vencer e assumam a responsabilidade de compreender. Quando estiverem certos, permaneçam justos. Quando estiverem errados, corrijam-se. Quando não souberem, estudem. Quando ferirem, reparem. Quando forem confrontados, examinem os fatos antes de transformar a verdade em inimiga.
Essa é a firmeza que a Luz exige.
Não a firmeza de quem jamais recua, mas a de quem jamais permanece conscientemente ao lado do erro apenas para não admitir que se enganou.
Renato, Guardião da Ordem da Luz, em nome da Lei, da Verdade e do Cristo.
Fonte: Reiny Kamanishy - Renato Guardião da Ordem da Luz



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