A Árvore Que Não Invejava o Rio
- silviarisilva
- há 1 dia
- 3 min de leitura

Sabe, meus filhos nem todo mundo nasceu pra correr.
Eu costumava sentar perto de uma árvore antiga, dessas que parecem já ter visto o mundo mudar muitas vezes. Ela ficava ali, firme, bem na beira de um rio que nunca parava. O rio passava cantando, indo longe, tocando outras terras, outras margens, outras histórias. A árvore ficava, sempre no mesmo lugar. Quem olha rápido acha que ela perdeu a chance de ir.
Um dia, fiquei ali observando os dois e pensei em voz alta, perguntei pra árvore se ela não tinha vontade de ser rio, de conhecer o que existe depois da curva, de não ficar presa naquele mesmo chão.
O silêncio dela me respondeu primeiro, depois, veio a compreensão. A árvore não invejava o rio porque sabia exatamente quem ela era.
Enquanto o rio seguia, ela sustentava, enquanto a água corria, ela acolhia, passarinhos faziam ninho em seus galhos, gente cansada se sentava à sua sombra, raízes seguravam a margem pra que a terra não fosse levada embora. O rio levava vida adiante, a árvore mantinha a vida ali.
E foi aí que eu entendi uma coisa que muda a gente por dentro. Cada um serve a vida de um jeito.
Tem gente que nasceu pra ir, pra falar, pra caminhar longe, pra tocar muitos lugares, tem gente que nasceu pra ficar, pra sustentar, pra ser ponto de apoio quando tudo em volta se move. O erro não está em ir nem em ficar, o erro está em desejar a missão do outro sem reconhecer a própria.
Muita dor nasce disso, meu filho, nasce quando quem nasceu árvore tenta viver como rio. Nasce quando quem nasceu rio se culpa por não conseguir parar. A árvore nunca reclamou de não viajar. Ela sabia que, se saísse dali, a margem desmoronava.
O rio nunca se envergonhou de seguir, ele sabia que, se parasse, a água apodrecia, cada um obedecia à própria natureza.
Na vida da gente é igual. Tem alma que se move muito, muda de lugar, aprende andando, cresce no caminho. Tem alma que cresce ficando, aprofundando, criando raízes num só espaço. Nenhuma é menor, nenhuma é maior, só são diferentes.
Mas a gente insiste em comparar, olha pra vida do outro e acha que tá perdendo algo, não percebe que, ao tentar viver o papel que não lhe cabe, abandona aquilo que veio sustentar. A árvore que tenta correr perde a força, o rio que tenta ficar perde a pureza.
Eu aprendi ali, sentado naquele chão, que paz vem quando a gente para de disputar função, quando aceita o próprio ritmo, o próprio lugar, o próprio jeito de servir. A árvore não precisava ir pra ser importante, o rio não precisava ficar pra ser necessário.
E tem mais uma coisa que quase ninguém vê. O rio só continua firme porque a árvore segura a margem, a árvore só continua viva porque o rio traz água. Eles não competem, eles cooperam.
Na vida, também é assim. Quem corre precisa de quem fica, quem fala precisa de quem escuta, quem aparece precisa de quem sustenta. Deus nunca criou tudo igual porque a vida precisa de diversidade pra permanecer em equilíbrio.
Por isso eu digo sempre, com calma, olhando nos olhos: Não queira a estrada do outro. Cuide bem do chão onde teus pés foram colocados.
Se meus filhos nasceu árvore, seja sombra, seja raiz, seja abrigo.
Se meus filhos nasceu rio, siga, leve, renove, sem culpa.
Jesus nunca pediu que todos fossem iguais. Ele só pediu que cada um fosse verdadeiro no amor. E amor não se mede pelo quanto se anda, mas pelo quanto se sustenta a vida por onde se passa.
A árvore continuou ali.
O rio continuou seguindo.
E eu voltei pra casa mais leve, sabendo que a maior liberdade da alma é parar de se comparar e começar a se aceitar.
“É assim que a paz mora dentro da gente”, e o Vô diz isso baixinho, como quem já entendeu que cada lugar certo sustenta o mundo inteiro.
Fonte: Reiny Kamanishy - Conversando Entre Amigos Vô João - Vô Ciço - Mentores Espirituais



Comentários