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Mistérios da Vida

  • silviarisilva
  • 4 de jun.
  • 10 min de leitura


No silêncio profundo do cosmos, naquele silêncio que não é vazio mas plenitude tão densa que nenhum som consegue atravessá-la sem ser transformado, reside o mistério da vida, não como pergunta que aguarda resposta mas como presença que aguarda reconhecimento, um enigma envolto em luz e sombra que não pede para ser decifrado mas para ser habitado, para ser vivido de dentro com a coragem de quem aceita que há coisas maiores do que a mente pode conter e que essa imensidão não é ameaça mas convite, o maior dos convites, aquele que o universo estende a cada ser que nasce e que a maioria só começa a ouvir quando a vida os faz parar por força do que não podiam controlar.


A cada batida do tambor sagrado que os antigos tocaram antes de nós e que os que virão depois de nós tocarão quando já formos apenas memória e vento, sentimos a pulsação do universo entrando pelo corpo como se o corpo fosse uma porta e o tambor a mão que bate nela, lembrando que você está aqui, que você é aqui, que o ritmo que está fora é o mesmo que está dentro e que a separação entre os dois sempre foi ilusão sustentada pelo barulho cotidiano que abafa a escuta mais profunda.


Esse ritmo ancestral que não foi inventado por nenhum povo porque pertence a todos os povos, que não começou em nenhuma época porque existia antes das épocas, nos chama a uma jornada sem fim com o desconhecido, não uma jornada para longe de si mesmo mas uma jornada em direção ao que em si mesmo ainda não foi descoberto, ao que dorme sob as histórias que você conta sobre quem você é, ao que pulsa sob as camadas de adaptação e sobrevivência que a vida foi depositando sobre a essência que veio ao mundo intacta e que permanece intacta por baixo de tudo, esperando que você se lembre dela.


A vida é o sopro divino que animou o pó das estrelas e fez dele carne, fez dele olho que olha, fez dele coração que sente, fez dele mente que pergunta de onde veio e para onde vai, como se o universo quisesse se perguntar através de cada ser que cria, como se a consciência fosse o modo que o cosmos encontrou de se contemplar a si mesmo no espelho de uma existência individual.


Você é feito do mesmo material que as estrelas que morrem em explosões imensas para liberar os elementos que a vida precisa para se tornar possível, e isso não é metáfora poética, é a mais literal das verdades, é física e é sagrado ao mesmo tempo, é o lugar onde a ciência e o espírito param de ser opostos e reconhecem que estavam sempre descrevendo a mesma coisa com vocabulários diferentes.


A centelha que brilha nos olhos de cada ser vivo, aquela luz que você vê quando olha de verdade para um animal, para uma criança, para qualquer criatura que ainda não aprendeu a esconder o que é, essa centelha reflete a vastidão do espírito que a contém da mesma forma que uma gota d'água reflete o céu inteiro se você souber olhar para ela sem pressa.


Em cada respiração que você toma sem pensar, nesse ato tão automático que a maioria passa a vida inteira sem realmente fazê-lo de forma consciente, a Mãe Terra nos acolhe como a mãe que nunca foi embora embora muitas vezes a tenhamos ignorado como se ela fosse apenas paisagem e não presença, apenas recurso e não relação, apenas fundo e não figura.


Ela partilha suas histórias esculpidas nas montanhas que são seu esqueleto levantado ao longo de eras em que nenhum humano existia para testemunhar e que existirão por eras em que nenhum humano existirá para lamentar, histórias que não têm começo nos livros porque começaram antes dos livros e que continuarão depois que todos os livros virarem pó e o pó virar terra e a terra virar montanha novamente.


Histórias lembradas nas florestas onde cada árvore é um nó de memória, onde o fungo abaixo do solo conecta raiz a raiz numa rede de comunicação que os antigos conheciam como fato e que a ciência moderna chegou a chamar de descoberta, cantadas pelos rios que levam nas suas águas o eco de cada margem que tocaram, cada pedra que poliram, cada peixe que abrigaram, cada pessoa que se debruçou sobre elas e viu seu próprio rosto refletido junto com o céu.


Os espíritos guardiões das árvores, aqueles que habitam a consciência vegetal que existe numa frequência mais lenta do que a humana e por isso raramente é percebida por quem não aprendeu a desacelerar até esse nível de presença, nos contam sobre o ciclo eterno de nascimento, crescimento, morte e renascimento não como consolação filosófica mas como fato vivido repetidamente em cada estação, em cada folha que abre e cai, em cada ramo que seca e em cada broto que surge exatamente de onde o seco estava como se a morte fosse o endereço certo do novo começo.


A árvore não chora a folha que cai em outubro porque sabe que outubro é parte do acordo, que o frio que parece ameaçador é na verdade necessário para que o descanso seja profundo o suficiente para que a primavera seja possível, que a semente precisa da escuridão da terra antes de poder conhecer a luz do sol, e que esse processo não é exceção mas regra, não é tragédia mas pedagogia da natureza ensinando ao que tem olhos para ver que perder não é o fim mas a condição do que começa.


Assim como as folhas caem ao chão e ao caírem não morrem mas se transformam, alimentando a terra com o que foram para que a terra possa alimentar com o que produzirá o que ainda não existe, nós também seguimos o fluxo da criação que não nos pede permissão mas nos inclui em seu movimento independente de nossa aquiescência, transformando-nos e renovando-nos incessantemente através de cada experiência que atravessamos, cada relação que nos tocou, cada perda que abriu espaço, cada alegria que nos lembrou por que valeu a pena vir até aqui.


Você não é hoje o que era há dez anos porque o fluxo da criação trabalhou em você nesse intervalo, desfez o que precisava ser desfeito, construiu o que só poderia ser construído sobre os escombros do anterior, e continuará trabalhando amanhã e depois sem nunca perguntar se você está pronto porque a prontidão não é condição prévia da transformação, a transformação é o que cria a prontidão para o que vem depois dela.


O fogo do Sol, esse fogo que existe há cinco bilhões de anos sem precisar de combustível que não seja a própria matéria de que é feito, nos lembra do poder da transformação que não preserva, que não protege, que não poupa aquilo que precisa ser consumido para que o que é verdadeiro possa emergir das cinzas do que era apenas aparência.


O Sol queima as ilusões com uma impessoalidade sagrada, sem raiva e sem piedade, porque não é cruel, apenas fiel à sua natureza que é iluminar e ao iluminar revelar, e o que é revelado nem sempre é confortável mas é sempre mais real do que a sombra que estava antes, mais útil do que a mentira que estava antes, mais fértil do que o vazio disfarçado de certeza que estava antes.


Quando você se expõe à verdade, quando para de desviar o olhar do que a luz insiste em mostrar, quando aceita ser queimado no que precisa ser queimado, o que resta é o que você sempre foi por baixo de tudo que acumulou sem saber que acumulava.


A água da chuva que cai sem escolher onde cair, que abençoa o campo seco e o campo fértil com a mesma generosidade sem distinção, purifica nossas almas não apagando o que foi vivido mas lavando a crosta que a dor deixa quando não é honrada, quando é empurrada para baixo da superfície onde endurece e pesa sem ser vista.


A chuva sagrada nos ensina que a limpeza não é violência mas gentileza, que a renovação não exige que você destrua o que foi mas apenas que permita que seja lavado o que não precisa mais ser carregado, que existe uma diferença entre a memória que ilumina e o peso que oprime, e que soltar o segundo não é trair o primeiro.


Ela nutre os campos da esperança que estavam secos sem saber que estavam esperando, que pareciam estéreis mas eram apenas aguardando a condição que ainda não havia chegado, e quando a água chega o que parecia morte revela-se como latência, como pausa entre dois movimentos de uma dança que não parou, apenas respirou.


O vento, mensageiro dos deuses que percorre a terra inteira sem precisar de passaporte nem de permissão, que atravessa as fronteiras que os humanos desenham como se a terra precisasse de linhas para saber o que é, nos fala de liberdade com uma eloquência que nenhuma palavra pode igualar porque ele não fala sobre liberdade, ele é liberdade, ele demonstra com cada rajada o que significa mover-se sem ser detido pelo que foi, sem ser contido pelo que poderia ser, existindo apenas no movimento que é ao mesmo tempo sua natureza e sua escolha, sua condição e sua expressão.


Ele nos move a explorar além dos horizontes visíveis, não porque o que está além seja necessariamente melhor do que o que está aqui mas porque a exploração é parte do que somos, porque o ser humano que para de se aventurar por dentro para de crescer da mesma forma que o vento que para de soprar para de ser vento, porque há sempre mais a descobrir nos territórios da própria alma do que qualquer viagem exterior poderia revelar, porque o horizonte visível é apenas o começo do que existe.


Na escuridão da noite, quando o sol desce e o mundo perde os contornos que durante o dia parecem definitivos e na escuridão revelam-se como provisórios, sob o manto da Grande Mãe que estende sobre tudo o seu escuro fértil como a terra estende sobre a semente o seu cobertor de solo, encontramos o consolo que o dia barulhento não sabe oferecer e a sabedoria dos ancestrais que se aproximam quando o ruído diminui e o espaço entre os pensamentos se alarga o suficiente para que caibam vozes que não são as nossas mas que falam de dentro, que não vieram de fora mas emergiram de uma profundidade que a vigília agitada não alcança.


Eles nos guiam com suas estrelas reluzentes que são ao mesmo tempo luz física que viajou anos-luz para chegar até seus olhos e presença simbólica dos que partiram mas não desapareceram, que transformaram sua energia densa em algo mais sutil e mais duradouro, que continuam olhando do alto com o amor que o amor verdadeiro nunca perde mesmo quando quem amava se dissolve na imensidão do que existe além da forma.


O mistério da vida é uma tapeçaria tecida com os fios do destino e do livre-arbítrio num padrão que não pode ser visto de dentro porque você é simultaneamente o tecedor e o tecido, a mão que puxa o fio e o fio que é puxado, aquele que escolhe e aquele que foi escolhido antes de poder escolher.


Cada fio tem seu propósito que às vezes só se revela quando o padrão maior torna-se visível, quando você olha para trás e vê que o que parecia erro era desvio necessário, que o que parecia perda estava abrindo espaço para o que vinha, que o que parecia fim era nó, ponto onde um fio terminava e outro começava na continuidade do mesmo padrão.


A beleza dessa tapeçaria não está na perfeição de cada fio isolado mas na relação entre eles, no contraste entre os escuros e os claros, na tensão entre o que foi planejado e o que surgiu sem ser planejado e revelou-se mais verdadeiro do que qualquer plano poderia ter sido.


Que possamos honrar esse mistério com reverência que não é distância mas proximidade sagrada, o tipo de respeito que se inclina para ver melhor em vez de recuar para não se envolver, abraçando a incerteza não como ausência de resposta mas como presença de algo maior do que as respostas que conhecemos, como um velho amigo que chega sem avisar e cujas visitas sempre deixam algo que você não sabia que precisava mas que depois não imagina como viveu sem.


Que caminhemos com o coração aberto às infinitas possibilidades do universo que não cabe em nenhum mapa porque é maior do que todos os mapas somados, que se manifesta de formas que a expectativa fechada nunca poderia ter previsto mas que o coração aberto reconhece imediatamente como exatamente o que era esperado mesmo sem ter sido esperado, como a chuva que você não sabia que estava aguardando até que ela começa a cair e o cheiro da terra molhada acorda em você uma saudade que não sabia que existia.


Que cada passo nosso ecoe com a gratidão pela jornada não apenas pelos momentos de beleza fácil mas pelos momentos de dificuldade que provaram que éramos mais do que pensávamos, que nos levaram a profundidades de nós mesmos que nunca teríamos alcançado sem ser conduzidos até lá pelo que parecia nos afundar mas estava na verdade nos ensinando a mergulhar.


E o respeito pelo sagrado que habita em cada ser, em cada pedra e em cada inseto, em cada criança que ri sem razão e em cada ancião que silencia com sabedoria, em cada flor que abre sem plateia e em cada pássaro que canta para o amanhecer que chegaria mesmo sem o seu canto mas que canta assim mesmo porque cantar é o que ele é, porque o sagrado não precisa de audiência para ser sagrado, ele apenas é, e ser é o suficiente.


Assim, na linguagem dos espíritos que não usa palavras mas usa tudo que existe como vocabulário, que fala através do trovão e do silêncio com a mesma eloquência, que não distingue entre o ordinário e o extraordinário porque tudo é extraordinário para quem tem olhos que sabem olhar, encontramos a verdade maior que não pode ser possuída mas apenas habitada, não pode ser ensinada mas apenas lembrada no momento em que a alma reconhece no que está sendo dito algo que ela sempre soube mas havia esquecido sob o peso de existir num mundo que valoriza o ruído mais do que o silêncio e a velocidade mais do que a profundidade.


A vida é um eterno ciclo de aprendizagem e transformação onde cada ciclo completo nos devolve ao começo mas não ao mesmo lugar do começo, nos devolve mais amplos, mais capazes de conter contradições sem sermos dilacerados por elas, mais capazes de amar sem exigir que o amor seja de uma forma específica para ser reconhecido como amor.


Um mistério belo e profundo que não se esgota na contemplação porque cada vez que você olha para ele com olhos diferentes vê algo que antes não estava lá ou estava mas você ainda não estava pronto para receber, que nos convida a caminhar ao som da eternidade não como quem marcha para um destino mas como quem dança numa música que nunca para, que nos inclui sem nos pedir que deixemos de ser o que somos, que nos transforma sem nunca nos trair, que nos leva para longe e nos traz de volta para casa e a casa é sempre mais ampla do que quando partimos porque o que fizemos na jornada a alargou por dentro, porque somos nós mesmos a casa que o universo habita, e o universo que somos nunca para de crescer.


Raio de Luar!


Fonte: Reiny Kamanishy - Raio de Luar Mentor Espiritual

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