Passos e Escolhas
- silviarisilva
- há 3 dias
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Nunca te esqueças, Irmão da estrada, de que a vida é caminho feito de passos e de escolhas, e que cada passo é já uma escolha e cada escolha é já um passo, que os dois não se separam como não se separa o vento do ar que o carrega, como não se separa a chama do calor que ela oferece.
O povo cigano sabe disso desde sempre, desde antes de saber ler em livro, porque aprendeu a ler na estrada, nas curvas que chegam sem aviso, nas bifurcações que não trazem placa, nos atalhos que ora encurtam ora enganam e que precisam ser percorridos para se saber qual dos dois são.
Não há mapa que substitua o andar, não há conselho que valha mais do que a experiência de colocar o pé no chão incerto e descobrir que o chão sustenta, que quase sempre sustenta, e que quando não sustenta você aprende a queda, que é também um ensinamento que nenhuma estrada pavimentada pode oferecer.
O tempo passa ligeiro como vento que sopra nas tendas do povo livre, e isso não é queixa nem lamento, é sabedoria que o cigano carrega nos olhos desde criança, aquele olhar que parece distante mas está na verdade muito presente, presente demais para se prender ao que passou ou ao que ainda não chegou.
O vento não se envergonha de passar, não pede desculpa por não ficar, não negocia sua velocidade com quem queria que ele demorasse mais, ele simplesmente segue porque seguir é sua natureza e a natureza não pede permissão para ser o que é.
Aprende com o vento essa liberdade de existir no presente sem culpa pelo ontem e sem ansiedade pelo amanhã, aprende que a tenda que balança não vai cair, que o movimento que parece ameaça é na verdade confirmação de que o vento passou e passou é sinal de que o mundo continua vivo, continua se movendo, continua oferecendo ao viajante atento a experiência de ser tocado por algo que não pode ser segurado mas que não pode ser negado.
Abraça forte quem caminha contigo, porque na estrada o abraço vale mais do que qualquer teto, é a casa que você carrega no corpo e oferece sem precisar de chave nem de porta, sem precisar de licença nem de endereço.
O povo que aprendeu a viver sem paredes fixas descobriu que o lar não é construção mas conexão, não é tijolo mas toque, não é estrutura mas sentimento de pertencer a alguém que também pertence a você, e essa pertença não precisa de contrato porque está escrita em algo mais duradouro do que papel, está escrita no modo como os olhos se encontram quando há reconhecimento verdadeiro, no modo como o silêncio entre duas pessoas que se amam não pesa mas descansa.
Não deixa passar o abraço por preguiça nem por pressa, porque há abraços que seriam o último e você não sabia, há abraços que a pessoa precisava mais do que qualquer coisa que você poderia ter dito, há abraços que curam o que a palavra não alcança, que fecham feridas antigas que só precisavam de calor humano para finalmente cicatrizar.
Sorria sem medo, porque o sorriso não é ingenuidade de quem não conhece a dor do caminho, é bravura de quem conhece e escolhe a luz assim mesmo, é afirmação de que a tristeza passou por aqui mas não ficou como dono, que a dificuldade estava presente mas não estava no comando.
O cigano que ri na fogueira depois de um dia de luta não está fingindo que o dia foi fácil, está dizendo com o sorriso que o dia não o quebrou, que chegou à noite inteiro o suficiente para celebrar o simples fato de ter chegado, que a fogueira acesa é já motivo de festa quando tantos ficaram sem fogo.
O sorriso é luz que espanta a tristeza do caminho não por magia mas por escolha, porque quando você ergue a comissura dos lábios está erguendo também algo dentro do peito que havia começado a descer, está dizendo ao próprio coração que ainda há razão para a alegria e o coração que duvida precisa ouvir isso com frequência, precisa ser lembrado de que a beleza existe mesmo no meio do difícil, especialmente no meio do difícil, porque é lá que ela tem mais coragem de mostrar a cara.
Perdoa depressa, não por fraqueza mas pela sabedoria antiga de quem entendeu que o rancor pesa mais no peito de quem o carrega do que nos ombros de quem o merecia, que a raiva que você guarda queima primeiro em você antes de chegar a qualquer outro lugar, que segurar a mágoa é como segurar brasa na mão esperando que ela queime quem te feriu.
Não carregues em teu peito peso que não te pertence, que nunca te pertenceu de direito, que chegou sem ser convidado e que só ficou porque ninguém teve a firmeza amorosa de mostrar a porta.
O povo cigano que cruzou fronteiras sem pedir licença, que viveu entre os que não o amavam e sobreviveu sem se tornar aquilo que o odiava, aprendeu na pele que perdoar não é concordar com o que foi feito mas recusar-se a ser definido pelo que fizeram com você, é uma declaração de soberania interior que diz eu sou maior do que isso que tentaram me fazer ser.
O rancor é âncora que afunda onde você quer navegar, que te prende ao porto de uma dor velha enquanto o vento da vida sopra chamando para o largo, e quem nasceu pra ser livre, quem traz no sangue a memória de gerações que não se curvaram ao que tentou dobrar sua espinha, não foi feito pra viver amarrado em dor que já deveria ser passado.
E acima de tudo não deixes tua alma adormecer no esquecimento que é o sono mais perigoso, aquele de que às vezes não se acorda por anos, aquele em que a vida passa e você está presente fisicamente mas ausente daquilo que mais importa, ausente do sabor das coisas simples, ausente da gratidão que só se sente quando se está acordado de verdade para o que se tem.
O esquecimento a que o cigano teme não é o da memória mas o da essência, não é esquecer o que viveu mas esquecer quem é, esquecer de onde vem e o que carrega de precioso nessa linhagem de gente que resistiu a tudo sem deixar de dançar, que perdeu muito sem perder o que não pode ser tomado, que foi expulsa de muitos lugares sem ser expulsa de si mesma.
Não durmas nesse esquecimento, Irmão da estrada, porque acordar dele custa caro e o preço é pago em tempo que não volta. A alma do caminheiro precisa de alimento que não se compra em nenhum mercado e não se encontra em nenhuma prateleira, que só se colhe nas atitudes pequenas que o dia oferece para quem tem olhos abertos para reconhecê-las como o que são, que são sagradas.
Alimenta tua alma com a prece que não precisa ser longa nem formalmente correta, que pode ser apenas um obrigado dito de verdade ao céu antes de dormir, um pedido honesto de força para o dia que começa, um momento de pausa em que você reconhece que não é tudo sozinho, que há algo maior do que você participando desta jornada e que esse algo não é indiferente ao que você está atravessando.
Alimenta com a gratidão que não é postura de bons modos mas prática espiritual de enxergar o que há em vez de ruminar o que falta, de reconhecer que mesmo no dia mais árido há pelo menos o fato de estar vivo que já é suficiente para uma gratidão se você parar o tempo necessário para sentir o peso real disso.
Alimenta com o olhar sincero pro céu estrelado que o cigano sempre soube ser o mapa mais confiável, aquele que não mente, que esteve ali para os antepassados da mesma forma que está para você agora, que o liga numa linha direta a todos os que olharam para essas mesmas estrelas antes de você e encontraram nelas o mesmo que você está procurando, que é confirmação de que você não está só, de que há uma ordem no cosmos mesmo quando a sua vida parece caótica, de que o que parece desordem embaixo faz parte de um padrão que só pode ser visto do alto e que é belo.
Alimenta com o respeito aos teus, àqueles que vieram antes e carregaram o que não podiam carregar para que você chegasse até aqui mais leve do que eles chegaram ao ponto deles, que plantaram para colheita que não seriam eles a fazer e que fizeram isso assim mesmo porque amavam o que viria depois mesmo sem conhecer o rosto, que te amaram antes de saber seu nome porque amar o próximo que ainda não nasceu é a forma mais pura de amor que existe.
Alimenta com a bondade oferecida de graça, sem esperar recibo nem retorno, com a mão estendida que não calcula nem condiciona, com o gesto que o cigano conhece bem, aquele de partilhar o pão quando o pão é pouco, de abrir a tenda para quem não tem teto mesmo quando a sua própria tenda está no limite, porque quem aprendeu a receber hospitalidade na dureza sabe o valor absoluto de oferecê-la, sabe que há um tipo de riqueza que só aumenta quando é distribuída e que diminui quando é guardada com medo.
Alimenta com o silêncio que escuta o coração, esse silêncio raro no mundo barulhento que se torna mais barulhento a cada geração como se o ruído fosse prova de importância, silêncio em que você para de falar o suficiente para ouvir o que a sua própria alma tem dito há tempos que você ainda não parou para escutar.
Porque a estrada é longa e o viajante que não aprendeu a cuidar de si mesmo chega exausto antes da metade, chega amargo antes do tempo, chega vazio quando precisava estar cheio para dar o que ainda falta dar.
Mas quem caminha com leveza, com o coração limpo de rancor e de peso desnecessário, com os olhos abertos para a beleza que a estrada oferece mesmo nas suas partes mais duras, esse chega mais longe não porque a estrada foi mais curta mas porque cada passo foi inteiro, porque cada passo foi dado com presença e não apenas com automatismo, porque chegou ao fim de cada dia tendo realmente vivido aquele dia e não apenas atravessado ele como quem atravessa uma sala escura com pressa de chegar à outra.
Há dias de festa e há dias de lágrima, assim ensina o povo cigano que nunca prometeu que a vida seria só uma coisa nem outra, que olhou sempre para a realidade sem romantismo barato mas também sem o cinismo que a dureza às vezes tenta instalar em quem sofreu demais sem entender por quê.
A festa é honrada porque a lágrima é conhecida, a alegria é real porque a tristeza foi real, o riso na fogueira tem profundidade porque já houve noites sem fogueira e o frio ensinou o valor do calor.
Mas tudo passa, tudo muda, tudo se renova com uma regularidade que deveria ser o maior consolo e que às vezes demora a ser reconhecido porque quando se está dentro da dor ela parece permanente, parece que sempre foi assim e sempre será, parece que o inverno dentro do peito não tem calendário nem data de término.
E o cigano velho que já passou por invernos que pareciam sem fim é quem diz ao jovem que está passando: isso também vai, meu filho, como tudo foi, como a neve derreteu sobre as tendas de teus avós que também duvidaram da primavera e a primavera assim mesmo chegou sem pedir que acreditassem nela para se anunciar.
A renovação não depende de sua fé para acontecer, ela acontece enquanto você ainda está duvidando, ela já está acontecendo agora no que você não consegue ver porque está olhando para o que dói e não para o que está silenciosamente se tornando possível do outro lado da dor.
O que fica, Irmão da estrada, quando tudo que pode ser levado pela vida for levado, quando o tempo tiver feito seu trabalho de desfazer o que era provisório e só o essencial restar, é o bem que semeaste sem saber se veria florescer, a palavra que confortaste no momento em que alguém estava no fundo e precisava ouvir que o fundo tem chão e que do chão se sobe, o perdão que ofereceste quando teria sido mais fácil guardar a ferida como escudo, a gentileza gratuita que não esperava nada de volta e que por isso tocou mais fundo do que qualquer gesto calculado poderia tocar.
Essas são as riquezas que o povo cigano sempre soube serem as únicas que não podem ser tomadas, que não se perdem em nenhuma fronteira que te impeçam de cruzar, que não ficam do lado de fora de nenhum lugar do qual te expulsem, porque estão dentro, porque foram tecidas na alma por atos que o tempo não desfaz.
E no final, quando o fogo da vida apagar tua vela com a suavidade que o amor permite, que não seja extinção mas transformação, que tua alma possa ser recebida pelos ventos livres da eternidade como se recebe de volta um pássaro que saiu para aprender o que só se aprende voando, recebida leve como quem entregou o peso no caminho, brilhante como quem não deixou a escuridão apagar o que era luz, perfumada com o amor que deixaste por onde passaste, que é o único perfume que o vento carrega sem que você precise estar mais presente para ele continuar espalhando teu aroma pelo mundo.
E hoje, não amanhã, hoje que é o único dia que você tem com certeza, eu te digo com a voz do fogo e com o sangue da estrada: valoriza teu passo, cada um, o firme e o vacilante, o que avança e o que recua, o que segue o plano e o que improvisa porque o plano falhou e a improvisação é a sabedoria cigana em sua forma mais pura, a capacidade de encontrar o caminho mesmo quando o caminho sumiu.
Honra teu caminho inteiro, não apenas as partes de que te orgulhas, mas os desvios que te envergonharam e que te ensinaram mais do que os sucessos, as quedas que provaram que você era capaz de levantar, os momentos em que errou e voltou atrás sem deixar o orgulho ferir de novo o que o erro já havia ferido.
Acende tua alma como se acende o fogo antes de dormir, para que a noite tenha luz e o amanhecer encontre brasa viva para ser soprada de volta à chama, para que a escuridão saiba que há alguém acordado, que há calor neste lugar, que a vida continua sendo cultivada com intenção e com presença. Porque viver, ah, viver já é um presente dos grandes, um presente que muitos não receberam ou receberam por menos tempo do que mereciam, um presente que você está recebendo agora, neste exato momento, nesta respiração que acontece enquanto você lê estas palavras, e que merece ser honrado com cada passo que você der daqui para frente, com cada escolha que você fizer com o coração aberto e os olhos no horizonte e os pés na terra que te sustenta e o vento nas costas que te empurra para o que você ainda vai se tornar.
Com Fé e Amor, Carlo!
Fonte Reiny Kamanishy - Carlo Socorrista Guardião da Ordem da Luz



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