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As Sombras que Ensinaram a Caminhar

  • silviarisilva
  • há 2 dias
  • 8 min de leitura

 


Mestre amado… houve um tempo em que eu temia as sombras, não com um medo qualquer, com aquele medo específico de quem acredita que a escuridão é uma sentença, que quando a noite chega é porque a luz decidiu ir embora, que quando o peso aumenta é porque algo em mim falhou de um modo tão fundamental que o seu cuidado havia se afastado.

 

Acreditava que as sombras eram provas de fracasso, que a alma verdadeiramente comprometida com a luz não as conheceria, ou que, se as conhecesse, as venceria rapidamente, sem hesitação, sem custo, e assim eu as escondia. Sorria por cima delas, construía uma narrativa de solidez que encobria o que tremia por dentro, porque mostrar a sombra parecia o mesmo que admitir que a luz nunca havia sido minha de verdade.

 

Mas a vida, paciente como você é, Mestre, foi desfazendo essa compreensão equivocada não com uma explicação, não com um argumento, mas com o peso do tempo e com a gentileza severa da experiência, e aos poucos, aquilo que eu chamava de fracasso foi revelando outro nome: escola. O que eu chamava de ausência foi revelando outra verdade: presença disfarçada de silêncio. O que eu chamava de abandono foi, na verdade, o momento em que me foi dado o espaço necessário para aprender o que nenhum conforto externo poderia ensinar.

 

Hoje compreendo, Jesus, meu Amigo, e uso essa palavra com toda a intimidade que ela carrega, que muitas sombras não surgiram para nos perder, surgiram para nos educar. Chegaram exatamente quando a alma já não podia mais fingir, quando o brilho externo já não sustentava o vazio interno, quando era preciso parar, sentir, olhar para dentro. E aprender a caminhar de um modo mais verdadeiro do que aquele que havia sido construído sobre aparências e sobre a necessidade de ser vista de determinada forma.

 

As sombras me ensinaram a diminuir o passo, a ouvir o corpo cansado que há tanto tempo havia pedido pausa e havia sido ignorado em nome da produtividade espiritual, em nome do serviço, em nome de tudo aquilo que justificava não parar. A respeitar o coração ferido não exigir dele que continuasse abrindo como se nunca tivesse sido partido. A reconhecer limites que o orgulho insistia em negar, aqueles limites que pareciam fraqueza e que eram, na verdade, a honestidade mais corajosa que existe.

 

Elas me ensinaram que não se caminha apenas com certezas, mas com coragem, que não se cresce evitando a dor, mas permitindo que ela revele o que ainda precisa ser curado, que a alma não se aprofunda no conforto aprofunda-se na travessia.

 

Houve noites, Mestre, em que a estrada parecia inexistente, não escorregadia, não íngreme, inexistente. Em que eu avançava às cegas, sem referências, sem sinais de que o próximo passo levaria a algum lugar que não fosse mais escuridão. Noites em que o silêncio pesava de um modo que o barulho nunca pesou, em que a ausência de resposta parecia, à mente ansiosa, confirmação de abandono.

 

E ainda assim eu seguia, não com fé de quem vê, com fé de quem confia sem ver, apenas confiando que estavas ali, Mestre, mesmo quando o silêncio parecia denso demais, mesmo quando o coração perguntava sem receber resposta imediata, mesmo quando tudo dentro de mim queria parar e o único movimento possível era continuar.

 

E estavas, Mestre, sempre estiveste não afastando a noite porque a noite tinha o que ensinar e afastá-la antes do tempo seria roubar de mim exatamente o que eu mais precisava aprender. Mas caminhando comigo dentro dela, sendo o chão quando o chão não era visível, sendo a direção quando a bússola interna havia perdido o norte.

 

Aprendi, então, que a fé não é luz constante, é confiança persistente, é continuar quando não se vê, é dizer sim ao caminho quando o caminho ainda não se mostrou.

 

As sombras também me ensinaram a humildade, Mestre. Não a humildade performática aquela que se declara em palavras enquanto o coração ainda se posiciona acima do outro. Mas a humildade real, que nasce quando as imagens que fazemos de nós mesmos começam a rachar. Quando os personagens que sustentávamos, aqueles que existiam para não sermos vistas frágeis, para não precisarmos de ninguém, para confirmarmos que estávamos além de determinadas vulnerabilidades, começam a desmoronar.

 

Foi na sombra que aprendi a pedir ajuda e sabe quanto isso custou, Mestre? Sabe o quanto o orgulho disfarçado de autossuficiência resistiu antes de ceder? Mas quando cedeu quando a primeira palavra verdadeira saiu, o primeiro "não estou bem", o primeiro "preciso de amparo", algo se abriu que havia estado fechado por muito tempo, como uma janela que se abre em quarto que esqueceu o que é o ar.

 

Foi na sombra que parei de explicar demais, que comecei a sentir mais, que percebi que as explicações intermináveis eram uma forma de controle de gerenciar como seria percebida, de construir a narrativa antes que o outro pudesse interpretar livremente, e que sentir, simplesmente sentir sem imediatamente traduzir em argumento, era uma forma de presença que eu havia desaprendido.

 

Foi na sombra que descobri que o amor verdadeiro não exige desempenho, apenas presença. Não o desempenho espiritual, não a consistência impecável, não a ausência de dúvida, apenas o estar aqui, real, com o que há, sem pretender ser mais do que se é naquele momento.

 

Jesus… houve sombras que vieram através de pessoas e essas foram, talvez, as mais complexas de atravessar. Porque a dor que vem da natureza tem uma impessoalidade que, de alguma forma, é mais fácil de aceitar. Mas a dor que vem de quem escolhemos amar, de quem confiamos, de quem nos foi próximo, essa dor tem nome, tem rosto, tem memória e demora mais para encontrar o lugar certo dentro de nós.

 

Algumas dessas pessoas feriram, não sempre com intenção, mas a ausência de intenção não elimina a marca. Outras confrontaram, disseram o que eu precisava ouvir de formas que eu não estava preparada para receber, e que levaram tempo para revelar o presente que estavam entregando debaixo do desconforto. Outras apenas revelaram partes minhas que eu preferia não ver. Espelhos que eu gostaria de virar para a parede, mas que o amor, o amor real, não o confortável, insistia em manter de frente para mim.

 

Hoje eu agradeço, não pelo sofrimento em si, porque romantizar a dor seria desonestidade, e você me ensinou Mestre a ser honesta antes de ser edificante, mas pela consciência que nasceu. Porque sem essas pessoas, sem esses encontros que rasgaram o que precisava ser rasgado, talvez eu ainda estivesse caminhando para fora, buscando no externo o que só o interno poderia oferecer, buscando nos outros a confirmação do que precisava ser encontrado dentro de mim.

 

Com o tempo, Mestre, percebi algo que mudou a forma como olho para tudo: as sombras não anulam a luz, elas a aprofundam, dão contraste, ensinam valor, retiram a superficialidade do brilho, aquele brilho fácil que existe apenas porque nunca foi testado, que parece sólido até o primeiro vento e revelam a luz que não depende de aplausos. A luz que continua existindo quando ninguém está olhando, a luz que não precisa ser confirmada para saber que é real.

 

Cada sombra atravessada me ensinou a caminhar com mais verdade, com menos pressa aquela pressa que eu usava para não sentir, para não chegar tarde demais ao próximo compromisso, para não dar ao silêncio espaço de fazer suas perguntas. Com menos julgamento, porque quando reconheci minhas próprias sombras, ficou impossível olhar para as do outro com superioridade, e com mais compaixão, não a compaixão que olha de cima, mas a que se ajoelha no mesmo chão.

 

Aprendi a olhar para o outro sem a necessidade de corrigir tudo, aprendi a acolher dores alheias porque reconheci as minhas, aprendi que ninguém fere do nada, e que toda agressividade é um pedido de socorro mal formulado, que por trás de cada dureza há uma ferida que não encontrou outra linguagem.

 

As sombras me ensinaram, Jesus, que caminhar contigo não é viver protegido da dor, é viver sustentado por um amor que não desiste quando a dor chega. Há uma diferença enorme entre essas duas coisas, e eu levei tempo para compreendê-la. Esperava a primeira, precisava da segunda, e quando entendi que o que eu havia recebido era muito melhor do que o que havia pedido, algo se reordenou dentro de mim.

 

Com suas mãos invisíveis, Mestre, foi transformando tropeços em degraus, não apagando os tropeços, eles aconteceram, foram reais, deixaram marcas. Mas revelando que as marcas não eram apenas feridas, eram também aprendizados, que o que havia parecido passo para trás havia, na verdade, apontado uma direção que o caminho direto nunca mostraria, que as quedas eram pausas necessárias, o corpo e a alma pedindo o que a vontade não sabia dar voluntariamente.

 

E as lágrimas, quantas lágrimas, Mestre, que em algum momento envergonharam, que pareceram sinal de que algo havia quebrado demais para ser consertado, foram água viva que regou partes secas da alma. Que chegou exatamente onde o pensamento não alcançava, onde o argumento não penetrava, que dissolveu, no silêncio úmido do choro, o que havia endurecido por falta de movimento.


Hoje caminho diferente, Mestre, não porque sei tudo, sei menos do que sabia quando achava que sabia muito. Não porque superei todas as sombras, algumas ainda aparecem, e já não finjo surpresa quando aparecem. Mas porque aceitei não saber. porque aprendi a não lutar contra as sombras e sim atravessá-las contigo.


A diferença entre lutar e atravessar é enorme, lutar gasta energia resistindo ao que é, atravessar usa a mesma energia para continuar movendo, e o mais bonito, o que mais me toca quando olho para trás com os olhos de hoje, é que ao sair dessas noites internas, não me tornei mais dura, tornei-me mais humana, mais simples, mais verdadeira. Como se as sombras tivessem retirado camadas desnecessárias, as defesas que haviam se tornado prisões, as performances que haviam se tornado cansaço, os personagens que haviam se tornado distância entre mim e o que realmente sou.

 

As sombras não me afastaram de você Mestre, elas me conduziram aos seus braços e foi nelas que aprendi que a luz que vale não é a que nos exibe é a que nos sustenta quando ninguém vê.

 

Por isso hoje eu digo, Jesus sem medo e sem romantizar a dor, porque você me ensinaste que a honestidade é uma forma de amor e que embelezar o sofrimento com palavras que não correspondem à experiência vivida é uma gentileza que engana, algumas sombras vieram para ensinar a caminhar, vieram para alinhar o passo com a alma, para que o que fazemos por fora corresponda ao que somos por dentro, para que o serviço nasça da verdade e não da necessidade de ser vista servindo.

 

Vieram para retirar excessos, ilusões, falsas seguranças, aquelas que pareciam fundação e que eram, na verdade, apenas móveis bem posicionados sobre um chão que ainda precisava ser construído. Vieram para mostrar que o caminho é sagrado não quando é fácil, mas quando é verdadeiro, que a santidade não está na ausência de tropeço, mas na qualidade da presença com que se continua depois de tropeçar.

 

E se hoje ainda existem sombras, porque existem, e provavelmente sempre existirão enquanto houver algo em mim que ainda precisa aprender, eu não fujo. Seguro sua mão e sigo, não com a coragem do invencível, mas com a coragem do que já aprendeu que atravessar é possível. Do que tem na memória não apenas a noite, mas também o amanhecer que veio depois dela, e sabe, portanto, que esse amanhecer voltará.

 

Porque aprendi contigo, Mestre, que nenhuma noite é maior do que o amor que nos acompanha. Que nenhuma sombra tem profundidade suficiente para apagar o que você acende, que nenhuma queda é definitiva quando há uma mão estendida, que não se cansa de oferecer.

 

E isso, Jesus já é luz suficiente para continuar caminhando, para continuar sendo, para continuar amando, para continuar atravessando com sua mão na minha, cada sombra que ainda vier sabendo que ela também veio para ensinar.

 

Com Carinho Irmã Lídia!


Fonte: Reiny Kamanishy - Irmã Lídia - mentora espiritual

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