O Dia Em Que Parei De Fugir De Mim
- silviarisilva
- há 18 horas
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Mestre amado… houve um dia em que compreendi algo que havia estado diante dos meus olhos por muito tempo, mas que eu, de alguma forma, me recusava a ver com clareza. Não estava fugindo do mundo, não estava fugindo das pessoas, das circunstâncias difíceis, das situações que se repetiam e que eu atribuía ao acaso ou ao destino. Estava fugindo de mim.
E a descoberta desse simples fato, tão simples que sua profundidade demora a pousar foi ao mesmo tempo a mais desorientadora e a mais libertadora que já recebi. Porque quando compreendemos que a fuga é de nós mesmos, não há mais para onde correr, não existe distância suficiente, não existe ocupação bastante, não existe barulho capaz de cobrir completamente o que mora dentro e insiste em ser ouvido.
Fugia dos sentimentos que não sabia nomear aqueles que chegavam como uma pressão no peito sem endereço, sem causa identificável, sem uma história clara que justificasse seu peso. Fugia das dores que empurrava para frente, esperando que o tempo as dissolvesse, sem compreender que o tempo, sozinho, não cura, apenas arquiva. Fugia das verdades que batiam à porta com uma insistência que eu fingia não reconhecer, que eu ouvia mas tratava como barulho de fundo, como algo que poderia ser resolvido mais tarde, quando houvesse menos pressa, quando houvesse menos medo.
E estavas ali, Jesus, não me acusando, não me pressionando, não me apresentando um prazo ou uma cobrança. Apenas caminhando ao meu lado, com aquela paciência que só o amor infinito produz, esperando que eu tivesse coragem de parar de correr.
Porque fugir cansa, Mestre, cansa de um modo que não se parece com o cansaço físico esse, pelo menos, se resolve com descanso. O cansaço da fuga é outro, é o cansaço de manter máscaras, de construir desculpas, de inventar narrativas que justifiquem por que o que se sente não é bem o que se sente, por que a dor que aparece não é bem dor, por que o medo que se manifesta é, na verdade, apenas prudência, discernimento, uma escolha consciente e não uma fuga disfarçada de decisão.
É o cansaço do endurecimento progressivo porque fugir exige que nos tornemos cada vez mais impermeáveis ao que tenta nos alcançar por dentro, e impermeabilidade tem um custo, ela não filtra apenas o que dói. Ela vai filtrando também o que alegra, o que move, o que conecta, o coração que aprendeu a se defender do sofrimento acaba, sem perceber, aprendendo a se defender também do amor.
E o mais doloroso, Mestre a fuga nos distancia da própria alma. Aquela região mais funda, mais silenciosa, mais verdadeira de nós mesmos, que não se interessa pelas máscaras, que não colabora com as narrativas convenientes, que simplesmente é, com uma honestidade que incomoda, vai ficando cada vez mais longe. E um dia olhamos para dentro e percebemos que não nos reconhecemos, que nos tornamos estranhos a nós mesmos, e que essa estranheza, que tentamos resolver com mais fuga, na verdade só se resolve com o gesto oposto: parar, ficar, olhar.
Quando parei, Jesus, o silêncio foi quase insuportável, não o silêncio externo, esse pode ser belo, pode ser buscado, pode ser cultivado. Mas o silêncio interno que emerge quando paramos de criar barulho para cobri-lo, quando a última distração se esgota, quando não há mais tarefa urgente, não há mais conversa que adie, não há mais movimento que justifique não estar presente consigo mesmo.
Foi ali que percebi o quanto de barulho eu havia criado ao longo dos anos precisamente para não ouvir o que doía. Que a agenda cheia não era apenas produtividade, era estratégia, que o comprometimento com o outro não era apenas generosidade, era também uma forma de nunca precisar sentar comigo mesma. Que o serviço, que é genuinamente bom e necessário, pode também se tornar uma forma sofisticada de fuga quando usado para não ter que habitar o próprio interior.
Mas me ensinaste algo precioso, Mestre: não existe cura sem encontro, e não existe encontro verdadeiro enquanto fugimos de nós mesmos. A cura não nos alcança na corrida, ela nos espera parada, exatamente onde paramos.
Olhar para dentro não foi simples, Mestre, não foi aquela experiência suave que às vezes se descreve, a meditação que traz paz, o recolhimento que restaura, foi, antes de qualquer outra coisa, um encontro com o que eu havia evitado por tanto tempo, e o que havia sido evitado não estava bem-humorado pela espera.
Encontrei fragilidades que não queria admitir, porque admiti-las parecia ameaçar a imagem de solidez que havia construído tão cuidadosamente. Encontrei medos que eu chamava de prudência, de discernimento, de sabedoria, mas que, olhados com mais honestidade, eram simplesmente medo. Medo de errar, medo de decepcionar, medo de ser vista por inteiro e, sendo vista por inteiro, não ser amada.
Encontrei orgulhos escondidos atrás de boas intenções, aquele orgulho especialmente insidioso que se fantasia de humildade, que se esconde dentro do serviço, que usa a entrega ao outro para não ter que se entregar a si mesmo, e encontrei feridas antigas ainda abertas, não abertas de forma dramática, visível, sangrante, mas abertas da forma silenciosa em que as feridas não tratadas ficam, criando uma sensibilidade em volta de si mesmas, determinando reações que não compreendemos, moldando escolhas que não sabemos de onde vêm.
Essas feridas não pediam julgamento, Mestre, pediam cuidado, pediam o gesto simples e profundo de ser finalmente reconhecidas, não resolvidas imediatamente, não explicadas, não transformadas em lição espiritual antes que pudessem simplesmente ser sentidas. Apenas reconhecidas, apenas: estou aqui, sei que você está aqui, e não vou mais fingir que não está.
Naquele dia, Jesus, aconteceu uma mudança que parece pequena descrita em palavras mas que foi, na prática, uma revolução interior: parei de lutar contra o que sentia e comecei a escutar. Não para me condenar, que havia sido o padrão por tanto tempo, a voz interna que transformava cada sentimento difícil em prova de falha, em evidência de inadequação. Mas para compreender, para perguntar, com genuína curiosidade ao invés de impaciência: o que este sentimento está tentando me dizer? De onde ele vem? O que ele precisa?
Aprendi, com você Mestre, que assumir a própria sombra não nos afasta da luz, nos torna mais honestos diante dela. Que a alma que admite suas contradições, que não precisa se apresentar imaculada para merecer o amor, que pode dizer "há em mim algo que ainda não compreendo e que ainda me governa de formas que não escolho conscientemente" essa alma está mais próxima da transformação do que aquela que insiste em se apresentar completa.
Que reconhecer limites não diminui a dignidade, apenas nos torna mais humanos e ser humano completamente, honestamente, sem a armadura da perfeição espiritual é, descobri, o caminho mais direto para o amor verdadeiro. Porque o amor verdadeiro não se dirige a uma imagem, ele se dirige a uma alma, e uma alma só pode ser alcançada quando para de se esconder atrás de suas próprias construções.
Parar de fugir de mim foi, Mestre, permitir que você me encontrasse sem defesas, sem os discursos espirituais preparados, aquelas respostas que havia treinado para as perguntas difíceis, que soavam como compreensão, mas que eram, na verdade, uma forma de não precisar realmente sentir o que as perguntas tocavam. Sem as tentativas de parecer melhor do que eu era, porque ao seu olhar, essa tentativa sempre foi transparente, e eu gastava energia em uma performance que nunca havia enganado ninguém além de mim mesma.
Ali, Mestre, não me pedia perfeição, pedia verdade e a verdade, aprendi com um espanto que ainda não passou completamente, liberta não porque é confortável, mas porque é real. Porque o que é real pode ser trabalhado, o que é real pode ser curado, o que é real pode ser transformado. Mas o que é fingido, o que é mantido na superfície por esforço e performance, não pode ser tocado pelo amor, porque o amor não encontra acesso ao que foi coberto por tantas camadas de proteção.
Descobri que muitas dores não pediam solução imediata, apenas presença.
Que muitos conflitos internos não queriam resposta, queriam acolhimento, e que quando parei de fugir, percebi algo que mudou tudo: Você nunca esteve distante, Mestre, era eu que estava ausente de mim.
O dia em que parei de fugir foi o dia em que comecei, de fato, a caminhar contigo. Não como antes, não como quem corre para chegar logo, para superar logo, para transformar a dor em aprendizado o mais rapidamente possível e seguir em frente como se o que aconteceu não houvesse acontecido. Mas como quem aceita o ritmo do próprio processo, como quem compreende que o crescimento não tem cronograma que a vontade determine, e que forçar a maturação antes da hora produz fruto que parece pronto mas que por dentro ainda é amargo.
Aprendi que crescer dói, mas que permanecer na fuga dói mais, com aquela dor surda, acumulativa, que não tem pico dramático mas que vai corroendo por dentro com uma consistência que a dor aguda do crescimento nunca teria. Aprendi que amadurecer exige a coragem específica de permanecer onde a alma quer ir embora, de ficar sentada com o desconforto sem imediatamente criar uma solução para ele, de tolerar a própria incompletude sem transformá-la em urgência.
E me ensinaste a ficar, Mestre, ficar comigo, ficar com o que sinto, não apenas com o que é apresentável, mas com o que é real. Ficar com o que ainda não sei resolver, sem a ansiedade de precisar resolver tudo agora, sem o julgamento de que não saber é uma falha. Porque é ficando que a cura começa a se organizar por dentro, é ficando que o amor aprende a agir com responsabilidade, é ficando que a fé deixa de ser ideia e se torna experiência viva.
Hoje, Mestre, não digo que já não sinto vontade de fugir, seria desonestidade, e você me ensinou que a desonestidade espiritual, aquela que mantém as aparências às custas da verdade, é talvez a forma mais sutil de fuga que existe. A vontade de fugir ainda aparece, aparece quando algo dói de um modo que a mente não consegue organizar rapidamente. Aparece quando uma verdade sobre mim mesma se apresenta e eu não estou preparada para recebê-la, aparece quando o silêncio interno ficou quieto por tempo suficiente para que as perguntas difíceis comecem a se formular.
Mas aprendi a reconhecê-la e esse reconhecimento mudou tudo, porque o que se reconhece já não governa da mesma forma. O impulso de fuga, quando identificado pelo nome que é, perde a capacidade de se disfarçar de prudência, de discernimento, de necessidade legítima de distância. Ele se revela pelo que é: um sinal de que algo precisa ser cuidado, não evitado, uma porta que precisa ser aberta, não trancada com mais um cadeado e quando a fuga tenta me chamar, seguro sua mão e permaneço. Não com heroísmo, não com a satisfação de quem superou. Mas com a simplicidade de quem aprendeu que a outra opção, a corrida de volta para o barulho, para a distração, para a superfície, deixa sempre uma conta que cresce a cada vez que é adiada.
Porque aprendi Contigo, Mestre, que ninguém se perde quando tem coragem de se encontrar. Que o encontro consigo mesmo não é o fim do caminhar é o começo do caminhar verdadeiro. Aquele em que os passos correspondem ao que realmente somos, em que a direção nasce de dentro e não de fora, em que o amor que oferecemos tem raiz no amor que aprendemos a oferecer a nós mesmos.
O dia em que parei de fugir foi o dia em que comecei a chegar, a chegar em mim, a chegar em Ti, a chegar naquilo que, no fundo, sempre fui, antes de aprender a me esconder.
E isso, Jesus mudou tudo.
Com Carinho Irmã Lídia!
Fonte: Reiny Kamanishy - Irmã Lídia Mentora Espiritual



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