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Quando a Queda se Torna Chão Sagrado

  • silviarisilva
  • há 2 dias
  • 7 min de leitura

 


Mestre amado… houve quedas que me envergonharam, não a vergonha passageira de um tropeço visto por olhos que logo desviam, mas aquela vergonha que fica, que conversa com o espelho, que aparece nas horas de silêncio com uma nitidez que o barulho do dia consegue abafar, mas não apagar. A vergonha de quem achava que já havia aprendido o suficiente para não cair daquela forma, de quem havia construído, com muito esforço, uma imagem de solidez e que viu essa imagem desmontar-se num instante, com uma rapidez que não deu tempo sequer de se preparar para o impacto.

 

Quedas que feriram o orgulho, que desmontaram certezas que eu havia tratado como conquistas definitivas, que me colocaram de joelhos, não por devoção, não pelo gesto belo de quem se inclina diante do sagrado por escolha, mas por cansaço. Por não ter mais força para permanecer em pé do jeito que havia me acostumado a estar em pé. Por não conseguir mais sustentar o peso do que havia acumulado em nome de uma força que, no fundo, era mais performance do que substância.

 

Naquele instante, Jesus, o chão parecia duro demais, frio demais, baixo demais para quem acreditava já ter aprendido a caminhar sem cair, e havia uma crueldade específica nisso não a crueldade de uma força exterior, mas a crueldade da própria expectativa: a distância entre quem eu achava que era e quem o chão me mostrou que ainda havia em mim que precisava ser trabalhado.

 

Mas estavas ali, Mestre, e isso, esse detalhe que muda tudo, não estava no alto, esperando que eu me levantasse sozinha para então me receber de volta ao caminho. Estavas no chão comigo, com uma presença que não julgava o fato de eu ter caído, que não calculava quanto tempo eu ficaria ali, que não comparava minha queda com a trajetória de outros que pareciam caminhar sem tropeçar.

 

Apenas presente, no mesmo nível, na mesma terra, como quem sabe que o chão não é derrota é lugar, e que há coisas que só se aprendem nesse lugar específico, nessa posição específica, nessa proximidade com a terra que a postura ereta não permite. Coisas que a altura esconde, coisas que só se veem de baixo.

 

Foi ali que aprendi, Mestre, que nem toda queda é fracasso, algumas são convite, convite a parar, aquela parada que a vontade nunca escolheria voluntariamente, mas que o corpo e a alma pedem há muito tempo. Convite a rever, com olhos que a pressa de continuar em movimento não permite ter, convite a sentir o que vinha sendo ignorado na correria de parecer forte, de estar bem, de demonstrar que o caminho estava sendo percorrido com a competência que eu exigia de mim mesma.

 

A queda retira o excesso, e o excesso, descobri, pesava muito mais do que eu havia percebido enquanto o carregava, porque o peso do excesso se instala gradualmente, e quando se acostuma ao peso, ele para de parecer peso e começa a parecer simplesmente o modo como as coisas são. Excesso de controle, aquela necessidade de manter tudo dentro de determinados parâmetros que me davam a ilusão de segurança, mas que, na verdade, eram uma forma de não confiar, no processo, nas pessoas, na vida, em Ti.

 

Excesso de expectativa, sobre mim mesma, sobre os outros, sobre como o caminho deveria se parecer em cada etapa. Expectativas que, quando não correspondidas, geravam uma decepção que eu não sabia bem de onde vinha, até compreender que toda decepção tem na sua raiz uma expectativa que não foi declarada, mas que estava ali, silenciosa e exigente, medindo a realidade pelo tamanho do que havia sido imaginado.

 

Excesso de imagem, aquela construção cuidadosa do que se projeta para o mundo, que começa como proteção e vai se tornando prisão. Porque manter uma imagem exige energia constante, exige vigilância, exige que uma parte de nós fique sempre de guarda, sempre monitorando, sempre pronta para corrigir qualquer desvio que ameace a coerência do personagem.

 

No chão, Jesus, já não há como sustentar máscaras, a terra nos lembra da própria humanidade. Do limite do corpo, da fragilidade da alma e da necessidade profunda tão profunda que a vergonha havia aprendido a esconder de apoio.

 

Foi na queda que aprendi que o amor não nos segura sempre em pé, e essa compreensão que no início pareceu quase uma acusação, quase uma prova de que o amor havia falhado revelou-se, com o tempo, como uma das mais profundas e libertadoras que já recebi.

 

Porque o amor que nos segura sempre em pé não nos deixa aprender a caminhar, não nos deixa desenvolver o que só o tropeço desenvolve. Não nos deixa encontrar, em nós mesmos, a capacidade de levantar que jamais saberíamos que tínhamos se nunca tivéssemos precisado usá-la.

 

O amor que importa, o seu amor, Mestre, nos ensina a levantar sem endurecer o coração, e essa distinção é tudo. Porque há duas formas de se levantar depois de uma queda: com o coração mais duro, que diz "nunca mais vou me permitir cair assim" e constrói mais paredes, mais controles, mais distância protetora, ou com o coração mais aberto, que diz "caí, aprendi, e agora carrego essa aprendizagem sem carregá-la como armadura".

 

Me ensinaste, Mestre, que cair não me afastava de você, afastava-me apenas da ilusão de que eu já não precisava aprender, e essa ilusão, a ilusão de chegada, de completude prematura, de quem acredita ter caminhado o suficiente para não precisar mais de colo era, talvez, o maior obstáculo entre mim e o crescimento que o amor tinha reservado para esse momento.

 

Quando a queda acontece, o chão se torna sagrado. não porque a dor seja sagrada em si, a dor é apenas dor, e seria desonestidade espiritual transformá-la em poesia antes que ela possa ser sentida pelo que é. Mas porque é ali, no chão, que a verdade nos encontra sem intermediários. Ali, onde já não há discurso preparado, onde a mente ainda não teve tempo de construir a narrativa que tornaria tudo mais administrável. Ali, onde só resta ser, não parecer, não explicar, não justificar, apenas ser o que se é naquele momento, com tudo que esse momento contém.

 

Foi no chão que percebi que muitas quedas não vêm para nos humilhar, vêm para nos reorganizar, recolocam o eixo quando o eixo desviou sem que percebêssemos, porque os desvios graduais são os mais traiçoeiros, os que a gente só reconhece quando a distância acumulada finalmente se torna impossível de ignorar. Realinham o passo quando o passo havia perdido a correspondência com a alma, reaproximam o ser de si mesmo quando o ser havia se distanciado de si mesmo a ponto de não mais se reconhecer.

 

O chão não nos rejeita, Mestre, ele nos sustenta, com uma fidelidade que nenhuma altura oferece, porque a altura pode ser perdida, mas o chão está sempre ali. E quando tocamos a terra, recordamos de onde viemos, recordamos a argila, recordamos que somos criaturas ainda em processo, que a jornada ainda não terminou, que há em nós regiões que ainda aguardam luz e cuidado, essa recordação não nos diminui, nos orienta.

 

Jesus… quantas vezes, antes de conhecer o peso de uma queda, julguei quem havia caído. Não sempre com palavras, o julgamento mais comum não se pronuncia em voz alta, ele age no olhar, na distância que se cria, na análise que se faz, mentalmente, sobre o que aquela pessoa deveria ter feito diferente, na certeza silenciosa, construída sobre a segurança de quem ainda não caiu, de que aquela queda poderia ter sido evitada com mais discernimento, mais fé, mais consistência.

 

Quantas vezes apontei caminhos sem saber o peso real de percorrê-los. Com a leveza de quem fala de fora sobre um terreno que ainda não pisou, com a confiança de quem confunde compreensão intelectual com experiência vivida, dois saberes completamente diferentes, que se reconhecem apenas quando se descobre o que faltava no primeiro.

 

Depois da queda, Mestre, o olhar muda, o julgamento perde força, não porque a discernimento desapareça, mas porque o orgulho que alimentava o julgamento foi retirado pela experiência de também ter estado no chão. A compaixão cresce, não a compaixão teórica, mas aquela que nasce do reconhecimento: eu também sei o que é estar aqui. A escuta se aprofunda, porque quem já precisou ser ouvido sem ser julgado aprende, quase inevitavelmente, a oferecer essa mesma qualidade de presença ao outro.

 

E quando, enfim, levantei, não foi uma levantada heroica, não foi o gesto dramático de quem se ergue com um discurso sobre o que aprendeu e como será diferente. Foi lenta, cuidadosa, consciente de cada movimento, de cada músculo que participava do esforço, de cada ponto de apoio que precisava ser encontrado antes que o próximo passo fosse dado.

 

Levantei com marcas, e aprendi a não escondê-las, porque as marcas são parte do que sou agora, e escondê-las seria negar o que a queda me ensinou, seria desfazer o trabalho que o chão fez em mim. Mas levantei também com consciência, com algo que não estava presente da mesma forma antes da queda: a consciência de que o chão existe, de que eu posso estar nele, de que quando estiver nele não estarei sozinha, e de que o que acontece no chão não precisa ser desperdiçado.

 

Me mostra, Jesus, que o chão só é queda quando nos recusamos a aprender com ele. Quando aceitamos o aprendizado, ele se transforma em base, na fundação mais sólida que qualquer altura poderia oferecer porque foi testada pelo peso real e não cedeu.

 

Hoje, Mestre, quando vejo alguém caído, já não pergunto "como deixou chegar a esse ponto". Essa pergunta, que parece análise mas é julgamento disfarçado, que parece cuidado mas é distância com roupagem de sabedoria, deixou de fazer sentido quando compreendi o quanto ela havia me distanciado de quem precisava de presença, não de diagnóstico.

 

A pergunta que ficou é outra, mais simples, mais direta, mais útil: como posso ajudar a levantar? Não como posso explicar por que caiu, não como posso garantir que não cairá novamente, não como posso transformar esse momento em lição antes que a pessoa esteja pronta para recebê-la. Mas como, nesse momento específico, com o que tenho disponível, posso oferecer a mão que um dia eu mesma precisei que fosse estendida.

Porque quem cai não precisa de julgamento, precisa de mão estendida, precisa de uma presença que diga, sem palavras ou com elas: eu estou aqui, você não está sozinho nesse chão. E o chão não é o fim da história, é um capítulo. Um capítulo que, quando atravessado com verdade, produz um ser humano mais inteiro do que qualquer percurso sem queda poderia produzir.

 

E se hoje ainda tropeço e tropeço, Mestre, porque o caminho ainda tem pedras e eu ainda tenho o que aprender, já não desespero, pauso, respiro, seguro sua mão. Porque aprendi contigo que até o chão se torna sagrado quando há um Mestre disposto a descer até ele.

 

Que cada queda atravessada com verdade ensina a caminhar com mais humildade, mais consciência e mais amor.

 

E isso, Jesus não é perda, é amadurecimento da alma.

 

Com Carinho Irmã Lídia!


Fonte: Reiny Kamanishy - Irmã Lídia - Mentora Espiritual

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